Mostrando postagens com marcador Honra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Honra. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

HONRA - Capítulo 4 (Final)



Capítulo 4 - Final
Os extremos da mente masculina


Às dez e quarenta entrou no banco onde era cliente. Arrumou o cabelo para trás, precisava ser bem reconhecido. Engoliu uns goles de saliva que pareciam dois pedaços de carne dura arranhando sua garganta e obstruindo seu esôfago. Iria fazer o que precisava ser feito. Parou no meio do banco, colocou a mão direita sob a camisa, em forma de pistola, e gritou:

- Isso é um assalto!!! Mãos para ci-cima, porra!!

Os seguranças, bem como as moças do caixa, começaram a rir. “Como o Rubilar é engraçado!”. Conheciam bem Rubilar, um homem divertido, de bem com todos. Mas Rubilar estava sério. Ficaram todos tão estupefatos que o dinheiro foi colocado em um envelope sem que os seguranças fizessem qualquer coisa. Na saída, agarrou uma velha e uma moça como reféns. Empurrou as choronas para dentro do carro e pisou fundo. Cinco quadras depois a polícia já o perseguia. “O que é isso?”, pensou, “desde quando a polícia é tão eficiente?”. Mas era ótimo, pensou ele.

Ultrapassou sinais fechados, bateu em bicicletas estacionadas na calçada, atropelou pedestres. Vinte minutos depois parou na frente de um prédio comercial, e antes de entrar no elevador ele mesmo telefonou para o canal de televisão, avisando que havia um homem maluco e assaltante com duas reféns entrando no tal prédio do centro da cidade. Arrastou a velha quase desfalecida e a moça para o heliporto, e um helicóptero da polícia chegou. Ameaçou atirar as duas lá embaixo. A moça vomitou de nervosa.

De dentro do helicóptero um dos policiais gritou:

- Solte a arma!!

Mas Rubilar não tirou a mão de baixo da camisa. Olhou lá para baixo e viu o carro da emissora chegando, misturando-se à multidão de curiosos.

Estampido.

Um tiro foi disparado de dentro do helicóptero, que pegou de raspão no braço de Rubilar.

- Isso, é isso que eu queria... – pensava, quase em transe, rindo feito um personagem inexistente de Tim Burton.

E atirou-se de cima do prédio. Se essa história fosse um filme, seu corpo iria cair em câmera lenta, e percorrer os trinta andares do alto até a calçada com tempo o suficiente para mostrar cenas de sua vida. Que fora extremamente sem graça. Talvez o melhor tenha sido sua infância, pois, ao menos nessa época, não se tem noção exata da desgraça e as suas consequências. Um corpo que cai. Não, já tinha um filme com esse título. Quando se aproximou do parapeito para saltar se sentia como um vilão dos filmes de super-herói, e vilões não costumam ganhar filmes só para eles. Não havia filme para Rubilar.

.

.

.

.

.

.

.

.

Nesse momento, já era conhecido por todos que assistiam ao plantão do noticiário como um assaltante louco suicida, e ninguém que o conhecia iria lembrar-se de comentar que havia broxado diante de uma prostituta. Seu plano seria concretizado.

Mais tarde, no noticiário noturno, passaram uma reportagem sobre o caso. Eliza Brazil, a repórter de corte Chanel e blazer rosa, voltou ao banco para buscar informações de testemunhas, e encontraram Vanda, a puta, que estava no local retirando dinheiro do caixa eletrônico quando tudo aconteceu.

- Esse homem estava fazendo um programa comigo pouco antes. Ele broxou sabe, e acho que enlouqueceu. Alguns homens enlouquecem com isso.

Na manhã seguinte, os jornais estampariam uma fotografia sua com a manchete: “O HOMEM QUE ENLOUQUECEU PORQUE BROXOU”.

- Essa foi a história de Rubilar. Voltamos a qualquer momento com novas informações direto aqui de Porto Alegre. Eliza Brazil para o Jornal Nacional. Patricia.



Fim

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

HONRA - Capítulo 3



Capítulo 3
O aniversário de Rubilar

Para Rubilar tudo era novidade. O toque das mãos, por si só, lhe causou um grande e sísmico orgasmo. Tentou disfarçar sua explosão precoce em uma incursão de mãos e línguas preliminares, procurando tempo para reanimar o desanimado, mas foi em vão. Vanda não era mulher de esperar. Ia direto ao ponto. Por mais que se esforçasse seu estado continuava o mesmo – como um cão se fingindo de morto. Nunca antes estivera com uma garota de programa. Vanda não respeitava os clientes.

- Broxa!!! – gritou ela, destruindo o seu orgulho como se fosse um bolo esmagado entre os dedos.

Pensou em seus colegas de trabalho, o Juan e o Balduíno, que lhe compraram Vanda como presente de aniversário. “Que decepção, meu amigo”. Em pouco tempo a empresa toda estaria sabendo, desde a recepção, passando pelas secretárias, pelo planejamento, pala produção, pelos motoboys e o almoxarife, até a diretoria. Seu fracasso com uma puta iria circular em um memorando. No mesmo dia, todas as putas da cidade iriam saber, e iriam cochichar gracinhas cheias de despropósitos quando circulasse em seu Mille Fire pela Avenida Farrapos.

Pensou no que diria Diva, sua recatada e gorda esposa, ao saber que o marido quase lhe traiu com uma garota de programa barata. Iria ser rejeitado por toda a família de Diva, aquele bando de obesos medíocres que nunca olhavam para o próprio rabo. O cunhado iria fazer piadinhas, a cunhada solteira iria falar “Bem que avisei”, os sogros iriam querer batê-lo, e os vizinhos dos obesos iriam espalhar a notícia pelos cantos onde a notícia não podia chegar.

Quando voltou a si ainda teve tempo de ver Vanda cobrindo suas tetas caídas como dois coadores de café usados. Atordoado, pegou a carteira.

- Não – disse ela – seus amigos me pagaram. Foi o dinheiro mais fácil de toda a minha vida – disse, rindo gargalhadas de meretriz aposentada.

Vanda também estava com o orgulho em frangalhos. Nunca ficou com trepada pendente. Depois que ela saiu arrastando suas sandálias de tiras cor vermelho sangue com plataforma de drag queen Rubilar sentiu um vazio, e toda a sua masculinidade se foi com os últimos ruídos dos saltos de Vanda sumindo pelas escadas do moquifo onde uma trepada não foi realizada. Não podia deixar que ficasse conhecido como O Broxa. Iriam fazer trocadilhos: “Você acredita em bruxas? E em broxas?”.

- Droga.

Foi tudo o que Rubilar pôde dizer. Olhou seu corpo no espelho, era pateticamente branco e magro. Vestiu-se e deixou aquele quarto cheio de pulgas quase correndo. Eram dez e vinte e dois, não havia sol, mas estava extremamente abafado, principalmente dentro do seu carro. Pegou um lenço do bolso e secou o suor da testa. Olhou uma placa de brechó e leu broxou. Deu uns tapas no próprio rosto.

- Aquela puta não vai me difamar, nem o Juan nem o Balduíno, nem a família obesa da minha mulher obesa...

E ali mesmo, dentro do seu carro de segunda mão, selou a sua sorte...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

HONRA - Capítulo 2


Capítulo 2



A recepção, paga pelo pai gordo da noiva gorda, exibia um exagero no buffet que só pôde entender quando os parentes de Diva entraram na igreja. “Deus do céu, o que é isso?”, pensou, todo o tempo, quase fora de si, olhando tamanho apetite. E tratou de respirar uns ares que, ao menos, o fizesse ficar de pé durante a festa. Não precisava mais desmaiar, porque já havia assinado o livro. Com o calorão que fazia a maionese estragou. Soube mais tarde que alguém comeu, e quase morreu de cólicas e diarréia e vômito.

“Bem que podia ter sido a tia cantora”, imaginou ele.

E a tia cantora resolveu cantar na festa, como se todos quisessem apreciar o seu número. Cantou Volare, e quando aplaudiram-na, apenas para não magoá-la, cantou mais cinco canções. Quase fora o fim.

No meio da festa Diva arremessou o buquê, o qual não foi pego por nenhuma de suas primas solteironas. Jogou os cravos e margaridas com tanta força que o ramalhete fora direto para o teto, onde ficou preso para sempre nos suportes de lâmpadas. Então, foram para a noite de núpcias.

Era a noite de núpcias em todos os sentidos, pois nunca haviam transado. Diva era recatada, ou tinha vergonha de perder o noivo quando visse suas ancas desnudas. “Agora é tarde”, pensou ela, louca para dar. Rubilar, de fato, assustou-se um pouco, e engoliu um choro que julgou ser desnecessário naquele momento. E seguiu em frente, já que não havia outra maneira. Mas por cima.

Na semana seguinte estava trabalhando numa empresa de logística, por indicação do sogro. Não gostava do trabalho, mas não tinha escolha. Após algum tempo, e com muitas economias, Rubilar comprou um Uno Mille Fire, seu primeiro automóvel, e era obrigado a levar Diva todos os domingos na Usina do Gasômetro e no Brick da Redenção para passear.



Essa era a sua vida até então. O tempo passou, até o dia atual...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

HONRA - Capítulo 1


Capítulo 1
Prefácio à Rubilar



Rubilar não era um homem propriamente feliz, mas também não era infeliz. Era casado com Diva, uma mulher obesa, e na maior parte do tempo extremamente irritante e inoportuna. Nem lembrava mais por que casara-se com aquela mulher. Sim, ele se lembrava muito bem. Sua adolescência fora pontuada por uma grande ausência de amores, flertes e afins, e mesmo que não admitisse, temia ficar sozinho, sem nunca ter mulher. Era inteligente, mas pouco carismático. Podia ser a ausência desse último elemento, mas o que acabava prevalecendo, também, era a sua paupérrima conta bancária e a sua aparência física sem nenhum atrativo.

- Rubilar, você é feio...

- Rubilar, eu não fico com garotos pobres...

- Ai Rubilar, detesto caras magrelos...

Frases como essas ecoaram em seus ouvidos por muitos anos, até Diva aparecer em sua vida feito um meteoro. Sem trocadilho. Já naquela idade Diva era gorda, e ela, assim como Rubilar, sabia muito bem o que significava ser excluída e o que implicava ser popular. Pessoas excluídas são carentes ao extremo, e talvez essa seja a explicação para um namoro totalmente fora dos padrões da escola ter iniciado. Era o feio e a gorda. O pobre e a gorda. O CDF e a gorda. Tudo o que é apelido e a gorda. Nisso Diva tinha um ponto a favor, tinha um só apelido.

Anos mais tarde, quando resolveram se casar, as duas famílias reuniram-se em uma comemoração que parecia sem sentido. Uma família neurótica e uma família gorda. Não podia existir coisa mais bizarra do que aquele dia em que precisou vestir fraque, por insistência de Diva, apesar de um calor de quarenta graus, e ouvir uma tia gorda da esposa, muito mais do que desafinada, cantando Ave Maria. Ficou pensando em todas as meninas que ousou cortejar na época da escola e, meu Deus, como elas eram diferentes! Não acreditou quando se virou no altar e viu Diva dentro de um vestido tomara-que-caia fazendo suas gorduras amontoarem-se desesperadas por oxigênio pelos cantos de seu corpo rumo ao decote, que, em determinado momento, caiu.

“Eu mato essa tia cantora”, repetia para si mesmo, suando em bicas, e desejou desmaiar, só para adiar aquele espetáculo de horrores...
















É hoje!! #HONRA

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Poster: HONRA

Poster oficial da Minissérie em Letras HONRA.
Estreia amanhã, às 21h.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Minissérie em letras



O novo projeto do EXPERIMENTO CULTURAIS prevê uma série de pequenas histórias publicadas em capítulos distribuídos em 4 ou 8 dias (sim, como na TV).

Se você não quer assistir Big Brother, se liga todas as noites aqui no blog para acompanhar divertidas, dramáticas e misteriosas histórias.

Para a estreia selecionei HONRA, uma história escrita em dezembro de 2005. Confira abaixo o resumo.


Rubilar, um homem mal casado e infeliz, broxou diante de uma puta barata e fofoqueira. Como lidar com a tristeza de ouvir comentários e piadas em cada lugar de Porto Alegre? Neurose, exagero, ou a mais pura verdade? Rubilar agiu rapidamente, e encontrou uma forma para mudar o foco do seu problema.


NÃO PERCA
O quê: Minissérie em Letras - HONRA
Estreia: 17 de janeiro - 4 capítulos
Horário: 21h
Liberado para todas as idades

Em breve, como parte das comemorações ao centenário do gênio Nelson Rodrigues aqui no blog, uma série em 8 capítulos inspirada nas suas mirabolantes histórias do subúrbio carioca.