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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Os Mil Dias de Água





Chovia há tanto tempo que ela havia esquecido como era viver sem estar cercada por água. Não era como uma ilha, mas ela estava lá: molhando o calçado, invadindo as residências e enfraquecendo suas vontades.

Tudo era um sacrifício. Tudo era difícil. Apesar de gente sofrer com a seca, sentia que em alguns dias iria mutar para algum animal marinho.

Se fosse criativa com palavras podia escrever textos deprimidos, contextualizando o clima como pano de fundo, mas não podia.

Olhava pela janela e sentia um acréscimo de tristeza sim, mas ela não podia ser externada.

Sentia falta de estar com as pessoas, de estar com ele. Porém constatou que as pessoas, de uma forma geral, estavam tristes também. Ninguém queria confraternizar, ninguém queria comentar sobre o filme favorito visto na TV, ou sobre a festa ao ar livre que não aconteceria mais.

Teve um leve receio, ao pensar por alguns instantes, de que aqueles mil dias de chuva fossem na verdade um sofrimento interno retido. E que tivessem sofrido um processo de condensação de uma forma que jamais pudesse explicar racionalmente. Se fosse pensar no processo de chuva normal, a camada líquida de lágrimas tristes guardadas no peito poderia ter esquentado e subido para o céu em forma de pequenas gotículas. Essas gotas teriam se acumulado e formado nuvens pesadas. A gravidade, não conseguindo suportar essa carga, poderia ter derramado a água salgada, enfim, sobre a terra. Num ciclo que não acabaria.

“Mas é muita água”, pensou ela.

E caberia somente a ela tentar fazer o sol apontar novamente naquele céu emburrado e amargo.





24/9/2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A Cigana







Ela acreditava que um dia seria merecedora da tal felicidade novelística.

Mas ela cresceu e viu que a vida é feita, mesmo, dos bastidores. Pequenos acidentes, más intenções, enganos, ilusões, promessas. Um mundo ficcional revelado.

Sempre haveria as chamadas gentes de bem, por mais que odiasse essa expressão. Mas elas existiam.  Só não tinha tido a sorte de esbarrar com alguma, como quem tropeça com uma pedra e a chuta. Porque é mais fácil acreditar que todos os tropeços são em pedras insignificantes.

Um dia caminhando pela rua uma cigana parou para ler a sua mão. Nunca acreditou nessas clarividências. Mentira, acreditava sim.

Tanto é que não hesitou nem por um segundo em estender sua mãozinha branca cheia de estradas gravadas na palma para a mulher.

“Cigana Esmeralda”, disse. “Me chamo assim.”

A velha, vestida com indumentárias que pareciam retiradas de um armário de figurinos da televisão, olhou para os caminhos que se transpassavam, olhou para ela e olhou para a mão de novo.

E disse, como se jogasse uma daquelas pedras na sua cabeça.

- Você nunca será feliz por gostar de homens.

Mas o que ela queria, que fosse lésbica? E afinal, pra ser feliz, tudo se resumia em homens?

E o mais triste foi perceber, naquele momento, que sim, estava mais preocupada com sua evolução afetiva, parecendo intelectualmente infectada por alguma coisa que inibisse sua capacidade de avaliar a importância das coisas.

A cigana largou a sua mão e ela caminhou pelo centro da cidade meio vazia. Não era fome. Era uma tristeza, uma descrença que não podia expressar verbalmente. E mais do que tudo, um sentimento de imbecilidade por acreditar tanto em uma andarilha.

Lá atrás, enquanto ela se afastava, a velha retirava o colar de pingentes dourados que havia prendido nos cabelos, os panos vermelhos e guardava tudo em uma bolsa. Mais um dia de trabalho ficava para trás. Afinal, era uma cigana tão verdadeira quanto uma nota de três reais. Seu negócio tinha como produto a ilusão.

Seu nome? Um nome comum. Maria da Conceição.




2/9/2015 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O Perfume Quente das Coroas





Esqueça o duplo sentido do título. Essa é a história sobre ele e o seu pavor de velórios.

Ele odiava velórios.

Não pelo fato de ter comparecido no velório do próprio pai, de tios e outros parentes, ou amigos e pais de amigos. Apenas não conseguia manter um pingo de serenidade em um ambiente como aquele.

Também não se sentia confortável com as crises de choro alheias. Nem com os votos de pêsames. Nem com a indumentária negra que muita gente ainda insistia em usar, porque certamente achavam chique.

O abafamento das capelas e o cheiro azedo das coroas de flores e a chama das velas formavam a cereja do bolo. Ficava levemente enjoado.

E tinha verdadeiro pavor dos chumacinhos de algodão enfiados nas narinas dos mortos.

E pensar que após uma vida toda, com suas histórias, amores, afetos e desafetos, realizações, frustrações... tudo se resumia a um terno/vestido barato e algodão no nariz.

Muitas vezes cogitou pedir aos seus familiares que não lhe fizessem velório. Que o cremassem. Mas tinha medo de fogo. Sim, estaria morto, mas a ideia o apavorava.

Não iria querer velório. Talvez para íntimos. Talvez não morresse. Talvez vivesse pra sempre.

Riu de suas bobagens.

O fato é que, para ele, que não tinha necessariamente medo de morrer, confrontar a morte alheia significava aceitar que a vida talvez entrasse na mira de um estrábico agente. Que talvez os alvos fossem inocentes. Falar em merecimento seria complicado, mas pensou que algumas de fato entrariam nessa lista. Muitas não.

De todos os velórios que precisou participar tirou duas conclusões: 1) nunca teria jardins tão bonitos em sua casa e 2) o cheiro da morte parecia colar nas suas roupas pra sempre.





31/8/2015

sábado, 29 de agosto de 2015

Ressaca de Lágrimas






Ele havia bebido todas as lágrimas dela na noite anterior. Lágrimas sofridas. Lágrimas de saquê. Tomou um porre delas. Fez o que tinha que ser feito.

Mas não queria tanto. Talvez nada. Bebeu socialmente na forma, e conscientemente no conteúdo.

Bebeu sem nenhum acompanhamento. Aquelas lágrimas caíram no estômago vazio feito um tiro, revoltando as entranhas igual maré alta.

O primeiro gole foi seco, igual adolescente bebendo destilado pela primeira vez. Sentiu nojo. Mas depois o gosto levemente salgado pareceu-lhe normal, e criou uma espécie de pequeno vício. Coisas do cérebro.

Não queria beber mais. Porém as lágrimas continuavam chegando, como se tivesse um garçom servindo eternamente, ao menor sinal de copo vazio.

Sentiu o primeiro sinal de embriaguez. Era impressionante o mundo visto da ótica daquele álcool. Tinha consciência do peso do líquido, da responsabilidade, mas estava eufórico. Queria mais. E teve mais. Ela chorou mais.

Continuou bebericando, afogando-se de vez em quando, por conta da intensidade dos goles. E do sabor. Sabia que, no dia seguinte, iria sentir-se morto. De corpo, de alma, de tudo. “Morto estando vivo é difícil de lidar”, pensou.

As cores da casa já haviam mudado. Os móveis movimentavam-se, e as paredes dançavam num passo sem ritmo. Os lustres pareciam mãos com Parkinson. Lembrou-se da sequência da animação Dumbo, quando o pequeno elefante mergulha num transe resultante de umas boas doses de bebida.

Só que sem trilha sonora.

Ergue-se do sofá, segurando-se onde não existia nada para se amparar, e desse esse momento tudo o que se lembra é de não mais existir.

*Os arquivos foram deletados*

Quando acordou a cabeça pesava toneladas. Olhou para o lado e ela não estava mais lá. A cama vazia o fez sentir uma perto no peito.

Enquanto ele ocupava-se de sua embriaguez, ainda na noite do ocorrido, ela pegou um pedaço de papel que achou na gavetinha do criado mudo e escreveu um recado.

“Desculpe te deixar. Achei que você entenderia, mas começou a chorar e não parou mais. E bebeu. E fez escândalo. Eu não posso suportar.”

Ele havia, então, enchido a cara com o próprio sofrimento. Naquela manhã seu coração sangrou uns goles de vinho tinto barato.



28/8/2015

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A Cobradora - Parte 4





Ele entrou no ônibus e percebeu que ela havia retornado ao seu posto de trabalho. Depois de muito tempo, a cobradora que nunca sorria estava de volta.

Pensou que ela estivesse de férias, ou havia sido trocada de linha temporariamente.

Seja o que for, não foi o suficiente para fazer a mulher esboçar um mínimo sorriso. Nada. Nem mesmo aquele sorriso com os olhos.

Seus olhos estavam falecidos.

Neste dia ele não havia levado o bilhete eletrônico. Entregou o valor da passagem em dinheiro e tocou a não da cobradora. Aquele toque mínimo resultante de um descuido.

Era morna.

Um calor perceptível em quem está, de fato, vivo.

"Ela está viva", pensou ele. E sentiu o mesmo calor no peito, junto com um aperto. Pois não havia nada mais triste do que ver alguém morto fingindo estar vivo.

Ele sentou em uma poltrona livre e ficou lá, olhando a mulher. Queria conversar com ela. Mas no caso dela estar morta de verdade, teve medo dela, sorrateiramente, sequestrar sua vontade de viver.

Porém um calor na pele não engana.

Imaginou então que ela devia chegar em casa, no fim do dia, com a pele gelada e dura igual a de um defunto. Que os problemas, os mínimos e os gigantes, aos poucos iam sugando aquele calorzinho que sentiu pela manhã.

Talvez ela morresse durante a jornada de trabalho, entre as notas de dinheiro e avisos de paradas. E talvez chegasse em casa com um fiapo de vida a prender a alma no corpo. E, possivelmente, ela tomava um banho quente pra reaver a temperatura de quem está neste mundo, a temperatura próxima do estado febril. Talvez ela comesse um pedaço de chocolate pra adoçar o ânimo. Talvez ela desejasse um beijo, quem sabe até ganhasse.

E nesse processo de ressuscitar, todas as noites ela se preparava para a quase morte do dia seguinte.

E, no fundo, era assim que todo mundo fazia. Alguns mais, outros menos.



25/8/2015

  
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A Mortalha





 - Essa noite eu sonhei com você.

Disse ela, pelo telefone. A voz estava embaralhada pelo receio de que ele não estivesse bem. Mas também era saudade.

No sonho, ela o viu vestido de luto. Ou podia ser, também, a própria mortalha dele. Acordou assustada, suando uns rios de água fria.

- Eu estou bem, fique calma.

A voz dele silenciou sua angústia, como um botão de rádio quando é desligado. Ela colocou o telefone no gancho conservando apenas a saudade. Essa não tinha remédio. Afinal, fazia semanas que não o via, desde que ele mudou de cidade para trabalhar.

Enquanto o café passava no coador de pano ela relembrava do último ano. Eram muitas lembranças com ele. As lembranças aqueciam sua fragilidade emocional, como o café aquecia a louça da xícara.

Bebeu um gole e achou forte. Mas a relação com ele também era.

Ao menos achava que sim.

Ela sentou na cama, com a xícara posta ao lado, no criado mudo. Pegou uma caixa com fotografias e pequenas anotações. Lá dentro estava um resumo do seu relacionamento com ele. As imagens estáticas não mentem. Ela estava feliz, e ele também.

Mas ela também sabia que nem sempre as coisas se encaminham como deveriam. Havia no armário, um pouco mais ao fundo, outras caixas de recordações. Elas também não mentiam. Havia fotos em que aparecia feliz com outros parceiros, e também anotações, bilhetes e cartas.

Aos poucos, as fotos cronologicamente analisadas pelas datas anotadas revelam uma ladeira imperceptível no início. Uma descida sem freio, impossível de ser contida.

Todas as histórias tinham um fim indesejado, algumas vezes até trágico.

As caixas dela eram uma repetição de fatos.

Entendeu, ali, que não poderia evitar descer mais uma ladeira. Que, um belo dia, as coisas iriam colidir como em um acidente, e parar lá embaixo. Destroços de seu corpo ferido pelo fim do amor que cultivava.

E por ter essa certeza, pegou o telefone, ligou para ele e disse que não mais poderia continuar.

Feito isso, guardou as coisas na caixa atual, passou fita adesiva e colocou junto com as outras no fundo do armário.




 24/8/2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Novas Constelações







Antônia acordou numa manhã de inverno rigoroso. Fazia frio Lá fora, porque no quarto do hospital a temperatura estava adequada.

Ainda não havia entendido que estava saindo de um coma. Jogada de volta no próprio corpo, redescobrindo a consciência.

Tudo o que sabia era que estava em um ambiente limpo demais para ser sua casa. Mas só lembrou que tinha casa, e até mesmo quem era, depois de bastante tempo. Sua cabeça estava transformada num liquidador de imagens e sons.

Não conseguia de mover. E ainda não sabia como chegara ali.

Perdeu a noção de quanto tempo ficou olhando ao seu redor. Mas tempo já não era algo tão significativo.

Queria tocar o próprio rosto, para ter certeza de que estava viva, mas não era possível. Nada em seu corpo respondia aos seus comandos. Escrava de alguma sequela. Foi nesse momento que uma mulher vestida de branco entrou no quarto. Deduziu que fosse uma enfermeira, e teve certeza de que estava hospitalizada.

A funcionária viu seus olhos abertos. Em pouco tempo médicos estavam no quarto, falando muito entre si. Ela não podia ouvi-los. Parecia uma TV no mute. Eles checavam os aparelhos que ela, em sua posição na cama, não podia enxergar, faziam exames preliminares, abriam suas pálpebras ao máximo.

Antônia queria dizer que estava bem. Queria perguntar o que havia acontecido. Queria saber onde estava sua família e seus amigos.

E também onde estava ele.

Um bom tempo se passou naquele momento que pareceu ser a descoberta da ciência, tamanho interesse em seu corpo recém desperto.

Mais tarde viu entrar, com euforia, sua mãe e sua irmã. O resumo de uma família fragmentada pela distância ou pela morte.

A mãe, uma senhorinha de pele descascada pela ação cotidiana do tempo, o mesmo que não sabia quanto havia passado, parecia estar mais velha. Sim, as memórias chegavam como se uma represa tivesse sido aberta.

Imaginou que a preocupação havia feito estragos na mãe. Ela chorava, um choro silencioso, pois nada conseguia ouvir. Ficou agoniada. Queria abraçar ela, dizer que estava bem. Queria ir pra casa.

Sua irmã estava arredia. Na verdade nunca foram amigas. A última lembrança que tinha dela foi num jantar de noivado. O noivado de sua irmã. Não aprovava o noivo, conhecia suas histórias decadentes e erradas, e tentou avisá-la. Só recebeu ataques como agradecimento.

Saiu do jantar apressada, querendo respirar. Foi quando bateu o carro.

Lembrou.

E desde então sua vida é uma lacuna.

E ainda queria saber sobre ele.

Sobre ele as últimas memórias eram mais confusas, entrelaçadas, saltando e voltando no tempo.

Lembrou quando fizeram a primeira viagem juntos para o Uruguai, e depois lembrou de quando se conheceram. Em algumas lembranças ele tinha o rosto diferente. No dia que o viu pela primeira vez ela estava deitada na grama, olhando o céu. Ele a viu e, sem nenhum aviso, lhe carregou no colo. E as lembranças se misturaram outra vez.

Onde ele estava na noite do acidente?

Ela não lembrou. Mas queria que ele estivesse ali.

Os médicos pediram que os familiares saíssem para que ela pudesse descansar e, posteriormente, realizar novos exames.

Ficou sozinha.

Sem conseguir falar ou escutar os demais, ficou tão agoniada, fez tanto esforço, que conseguiu mover os braços. Eram como membros rígidos de um fóssil.

Apoiou-se na cama e levantou, a ponto de ver o quarto todo girar. Sentiu que estava num abismo.

Quando pôde, saiu da cama e se arrastou até o banheiro. Pareceu demorar horas. E quando chegou foi direto até um espelhinho colado na parede.

Enxergou-se no reflexo e entendeu que muitos anos haviam passado pelo seu corpo. Estava velha. Não podia dizer com quantos anos estava. Nem reparou na diferença gritante no rosto de sua mãe, e nas mudanças de sua irmã.

E ele, por onde ele andava?

Queria ir até a casa dele. Saiu do hospital sem que alguém percebesse. Era noite. E frio.

Não sabia ao certo a direção que precisava seguir. As luzes dos faróis dos automóveis pareciam cenas de um videoclipe acelerado. Desviava dos pedestres, daqueles que a olhavam como se fosse maluca.

Andou muito, até não ser mais possível fisicamente.

E caiu no gramado de uma calçada.

Olhou para o céu antes de desmaiar e as estrelas se embaralhavam, parecendo formar novas constelações que mudariam as orientações astrológicas de personalidade. Foi a mesma cena que viu no dia do seu acidente.

Estava deitada na grama depois de ser jogada para fora do carro. Olhava o movimento das estrelas. Até que ele apareceu, e a viu deitada no chão. Carregou ela no colo. Foi assim que se conheceram.

E o resto é coma.

***

Ela nunca acordou do seu estado vegetativo. Nunca.

Estava sonhando conscientemente dentro do coma, em uma ponte com a realidade que era possível enxergar, mas não cruzar.

Todas as lembranças com ele foram, possivelmente, imagens aleatórias e inventadas de um desejo oculto e reprimido junto com as lembranças da batida do carro.

E assim ela permaneceu lá, deitada no leito, como essas princesas fantasiosas esperando alguém lhe dar um beijo na boca para acordar.



20 e 21/8/2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O Coração de Feltro






Ela tinha um problema cientificamente inexplicável.

Seu coração nasceu colado do lado de fora do peito. E do lado de fora ele batia, bombeando o sangue para dentro. E ele voltava pra fora, e depois era impulsionado para dentro e assim por diante. Ninguém jamais ousou operá-la.

Mas não, não era nojento de se ver.

Seu coração era como uma pequena peça de brinquedo. Dele não escorria sangue, e nem tinha a viscosidade que o interior do corpo humano conferia. Parecia um pequeno e delicado coração de feltro.

Mas seus anos foram difíceis.

Ela não frequentou a escola, porque a mãe tinha medo que as brincadeiras infantis lhe arrancassem o órgão do peito desprotegido.

Na adolescência ela tinha vergonha, e nunca usava roupas decotadas. Parecia viver com o corpo em uma espécie de luto. Tudo por conta do coraçãozinho com aspecto de tecido.

Quando começou a se interessar pelos meninos a situação se agravou. Porque ficava difícil esconder. Tomada pelo nervosismo o coração palpitava tanto, tanto que, por vezes, quase escapava pelos espaços entre os botões do vestido.

Assim, ficava longos períodos trancada dentro de casa com medo de ser apontada na rua. A vida não era fácil para alguém com diferenças.

Mas isso foi há muito tempo. Hoje ela é uma senhora de cabelos com cor de papel reciclado.

O tempo passou e com ele incontáveis maneiras de tentar esconder o que, para muita gente, era um defeito inconcebível.

E hoje o coraçãozinho de feltro já não existe mais.

No lugar dele um coração de mentirinha, duro e frio, desenvolvido pela ciência, executa as funções que o corpo precisa.

“Mas o que aconteceu?”, perguntavam as pessoas, sempre que a história era contada.

“Um dia roubaram meu coração. Não poderia nunca supor a intenção. Me levaram o coração embora, arrancado do peito sem esforço, com apenas uma das mãos. Não, eu não morri, como pode ver, e nem morreria. O que acontece é que, com o passar dos anos, a gente aprende a viver com um coração duro no lugar do original”.

Corações de feltro são realmente raros e, por isso, os mais cobiçados para serem roubados.




19/8/2015

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Cidades em Miniatura







Ainda na cama, abraçada com ele, olhou pela janela e viu, do alto daqueles incontáveis andares, toda a extensão da cidade, como se fosse uma miniatura iluminada por milhares de micro lâmpadas.

Ficou tão fascinada com a escuridão da noite riscada por aqueles minúsculos raios de luz que se desvencilhou dos braços dele, com cuidado, e parou na frente da janela, que ia do chão ao teto.

Pensou em tirar uma foto, mas jamais reproduziria o mesmo inacreditável frame de filme.

Era mesmo como num filme.

Um filme colorido à mão.

“Agora eu vejo em technicolor”, disse ela. Afinal, no automatismo do dia a dia, tudo parece cinza.

Olhou para cama e ele ainda dormia, ressonando delicadamente. Como se fosse suspiros em estado de sonho. Ainda vestia sua camisa floral. Talvez ele estivesse realmente sonhando.

Ela voltou a olhar pela janela e imaginou seus passos por aquelas mini ruas.

Os passos que a fizeram sair de casa para se encontrar com ele, ainda dia.

Os passos que a fizeram entrar no transporte coletivo, exausta de calor.

Os passos que a fizeram descer no ponto devido e caminhar ladeira acima.

Os passos que a fizeram dobrar a esquina e o avistar, esperando por ela.

Os passos que conduziram os dois até aquele quarto onde, agora, observa a noite iluminada.

Mas os passos também a levaram para a realidade.

Voltou para a cama e se encaixou novamente no abraço dele.

E acordou.

Tudo não passou de um sonho. Para ter certeza, olhou para a janela, que não era a mesma, e a única coisa que avistou foi a parede do prédio em frente.

Mas a sensação de frame cinematográfico ainda enchia o ambiente, como se tivesse saído do ar condicionado e se espalhado.

Olhou para ele e dormiu mais uma vez. Talvez sonhasse.




18/8/2015

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Ela Foi Para as Estrelas








Quando criança ela ouvia dizer que as estrelas eram pontos de tinta. "Como pintavam tão alto?", perguntava.

Hoje, já uma velha golpeada pela idade, ri baixinho dessas tolices.

Mas todas as noites, quando calça os chinelinhos e cobre a camisola com seu chambre de matelassê verde e caminha pelo corredor se arrastando até a porta do jardim, tudo o que vê no céu são, sim, os pingos amarelos de tinta.

Nada mudou.

O tempo fez dela mulher, o tempo fez dela mulher casada, o tempo fez dela mãe, o tempo fez dela viúva, o tempo fez dela mulher sozinha.

Mas a tinta continuava lá, sendo respingada no céu, como se fosse uma obra de Pollock.

A solidão é amiga íntima da nostalgia.

Por isso que os anos mais recentes foram dedicados ao resgate dos instantes apagados, rasurados ou deixados de lado no formato de caixa de fotografias.

Os chás que bebia tinham o aroma da cozinha de sua mãe. O sabonete de lavanda trazia de volta os banhos na banheira em que brincava de oceano. Os sambas faziam ecoar nos seus ouvidos a voz do pai quando cantarolava Cartola.

E a escuridão noturna servia pra lembrar de qualquer época. Pois era nela que libertava o choro. Era nela que, renegada pelo marido, tocava o próprio corpo. Era nela que, já viúva, se desfazia dos objetos dele. Era nela que esperava o telefonema dos filhos. Era nela que, na insônia, pensava em aprender a usar o computador, mas percebia que seu mundo eram os livros e os cadernos de anotação. Era nela que sentia as dores no corpo se potencializarem. Era na noite que reforçava a sua certeza de que estrelas eram gotas de tinta.

Numa dessas noites recentes, atordoada de calor, ela caminhou até o jardim. Sem o chambre. Sentou no banco e observou o céu limpo. Os olhos dela choraram lágrimas quase invisíveis. Talvez as lágrimas secassem com o tempo.

Detestava a ideia de ser uma velha chorona. Mas esse era outro ponto negativo da idade avançada. Pessoas velhas se tornam crianças em muitos aspectos, incluindo a facilidade pra chorar.

As lágrimas encontraram os sulcos da pele e ali ficaram como se fosse um pequeno reservatório.

De repente, olhando as estrelas, ela ficou assombrada. Porque sabia, por meio de seu lado racional, que as estrelas que via naquele momento já tinham morrido há muito tempo. Era um brilho de reflexo. Sentiu que também estava um pouco morta.

Fechou os olhos e desejou se apagar.

Será que ainda era vista?

Pensou, enfim, que a solidão humana era um céu de estrelas desligadas.





16 e 17/8/2015

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Jornada para a Ilusão






Júlia acordou de um sonho oceânico.

Assim que as luzes dos seus olhos apagaram, na noite anterior, sentiu na pele a maresia.  O cheiro de peixe tocou suas narinas, mas podia ser o cheiro de sereias naufragadas.

Avistou um barquinho de papel ancorado perto da praia. Era nele que iria embarcar. Ficou impressionada que a água não danificava sua estrutura.

Em sua mão esquerda um pequeno saco de tecido contendo doces para a viagem.

Não sabia bem ao certo para onde estava indo. Superou seu medo de água quando, com a ajuda de um pescador, subiu na dobradura. A estrutura lhe pareceu bem sólida, por isso ficou mais tranquila.

“O sol vai bater no branco do papel e vou ficar cega”, pensou, rindo. E não pôde deixar de ficar impressionada com o fato de, mesmo em sonho, o mar ser tão azul. Azul como ficava a sua pele de vez em quando. Deveria apenas ser reflexo.

O pescador empurrou o barco.

Júlia estava na proa do barquinho de papel, seus cabelos vermelhos dançavam com a ventania. Achou que, por estar sonhando, não demoraria para chegar. Mas nem sabia para onde estava indo.

Era como se o oceano representasse a sua vida fora do sono, na consciência. Afinal, lá ela também não sabia de nada.

Uma sereia apareceu nadando e pulando para fora da água. Mas a sereia não cantou, pois sua música não teria efeito sobre uma mulher.

E nem falou nada, apenas seguiu nadando. Júlia pensou estar em um desenho da Disney.

O sol começou a baixar e Júlia ficou triste. Não gostava de escuro. A sereia estava acostumada, pois vivia no escuro do fundo do mar. E já não mais a via.

Acima de Júlia uma infinidade de novas constelações brigavam entre si para ver quem pontilhava mais o papel negro do céu.

Não sabia mais há quanto tempo estava navegando. Havia visto o sol e as estrelas muitas vezes. Os doces acabaram.

Júlia chorou porque estava sozinha em águas que não mais acabavam. Lembrou que fora do sonho também era sozinha. Agora estava ali, em um barco de papel sem rumo. Pelo menos acordada não era obrigada a ficar em alto mar.

Numa dessas noites apareceu outra sereia. Mas não era a mesma. Era uma sereia velha, de longos cabelos brancos, pele de aspecto corroído e conchas quebradas a cobrir-lhe as tetas tristes.

Depois de observar com atenção entendeu que aquela era sim a mesma sereia do início. Parecia uma sereia avó. Assim como da outra vez ela não cantou, apenas nadou. Dessa vez com um pouco de dificuldade. Peixes velhos são assim mesmo.

A sereia vovó lhe estendeu a mão e Júlia sentiu que ia chorar de pena. Achou que criaturas como aquela não envelheciam nunca. Isso significou que estava há muito tempo naquele barco de dobradura. Mais do que podia contar.

Júlia chorou de novo, gritou, pediu para sair dali. Pediu para acordar. Nada acontecia. Pediu então para achar a direção. Dizia para si mesma que estava cansada de ver o tempo passar e ficar no mesmo lugar. Queria ancorar, para depois navegar de novo. Queria conversar, queria mais doces, queria um abraço.

A sereia velha se despediu e mergulhou de novo, e nunca mais a viu. Talvez fosse a última de sua espécie.

Júlia acordou.

Sentou na cama para entender o sonho que teve, e entendeu que naquele momento é que estava, realmente, sonhando.

Sua vida real era lá, naquele barco, presa entre mares que não tinham mais praias para ancorar.

E entendeu que, ao menos em sonho, podia ter a oportunidade de fazer o que quisesse. 






14/8/2015 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O Romance Datilografado






Ela entrou no quarto e ele datilografava em uma Olivetti vermelha.

Ele se julgava velho demais para usar um computador e novo demais pra escrever suas narrativas em um caderno, gastando punho.

Ela odiava quando ele carregava a máquina para a cama. Mas evitava confrontos. Aguentava o ruído das teclas pela madrugada.

Lá fora ventava umas lamúrias vindas do sul, onde morou na juventude.  

Ela se cobriu, e a luz gasta da luminária dele deixou o quarto com aspecto de sonho.

Eram sonhos o que ela tinha, foi luz completamente acesa o que ganhou.

De tudo, o mais irônico era que das teclas da Olivetti brotavam as histórias mais entrelaçadas, mais amorosamente escritas. Sua vida com ele não era, de fato, pano de fundo para narrativas.

Nunca foi.

Mas o tempo passa, pensou ela, e é possível se habituar com o ruído das teclas, a luz difusa e o boa noite automático.

É possível se habituar com o que nunca teve.

Não havia tempo para recomeços.

Mas todos os dias, quando deitava, e retirava os seus óculos de grau para dormir e passava, então, a enxergar tudo embaralhado, recolhia-se em um momento só seu. Uns minutos em que orava, mas não para os santos de devoção da juventude interiorana. Ela rezava para que qualquer uma daquelas doenças da velhice o levasse embora logo, que fulminasse com sua saúde de Biotônico Fontoura, que dizimasse na hora da morte cada ausência nunca transposta para o papel daquela máquina de merda, que varresse do mapa de sua vida aquele nome que não ousava mais dizer, que libertasse as suas noites da insônia de vê-lo se emocionar com cada parágrafo concluído, que queimasse no fogo do inferno as palavras cruzadas matinais, o jornal de esportes e os programas de auditório, que lavasse com ácido de sua memória cada sorriso de robô que ganhou, e que, por fim, pudesse dormir em paz.




13/8/2015 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Lembranças em 78 Rotações por Minuto




No ônibus um senhorzinho sentou na sua frente. Cuidadosamente ele retirou de uma sacola um LP muito antigo, carcomido pelo tempo e com a capa riscada por um dos prováveis muitos donos que teve.

Ele retirou a bolacha (ou biscoito?) de vinil negro da embalagem e do saco plástico que o envolvia.

Com maestria arrancou as rebarbas do plástico, ajeitou o disco e o colocou de volta no invólucro de papelão amassado.

Ninguém haveria de saber, mas aquela ação, que não durou nem dois minutos, retirou de dentro do seu cérebro um tanto de memórias rotativas, guardadas e marcadas pelos anos, empoeiradas e, talvez, em comprometido estado de funcionamento.


O senhorzinho contemplou o disco mais uma vez, num gesto que só a saudade permite, e guardou as lembranças.






12/8/2015

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Incompatibilidades




- Quer uma xícara de café?
- Eu não gosto.
- Mas quando saímos pela primeira vez você propôs tomarmos um café.
- Era só um pretexto, um charme.
- Mas você tomou de fato.
- Na vida a gente faz alguns sacrifícios.
- Você bebeu três enquanto a gente conversava.
- Sim, me sacrifiquei três vezes.
- Não sabia que eu estava com tanta moral.
- Não é isso, é que eu não podia voltar atrás.
- Ah.
- Depois tive muitas queimações no estômago.
- E o que mais você fez como sacrifício?
- O seu sanduíche com bacon.
- Mas você elogiou.
- Não como bacon nunca.
- Mas você comeu.
- Não comi, cuspi nos guardanapos quando você não estava olhando.
- Os dois sanduíches?
- Sim.
- Puxa...
- Pois é.
- O que mais?
- Como assim?
- Quero saber todo o resto.
- Mas por quê?
- Quero saber do que você realmente gostou. Se é que gostou.
- Ok. Eu detestei os seus LPs favoritos de música instrumental.
- Mas você falou que era relaxante.
- Até demais, eu dormi várias vezes enquanto você falava dos artistas.
- Não sei o que dizer.
- E tem mais. Eu senti pavor quando você me levou para conhecer sua cidade natal.
- O que tem a minha cidade?
- É tenebrosa. Feia. Sem atrativo nenhum. Não serve nem pra dormir.
- Gente.
- Eu também detestei sua mãe.
- Mas por que isso? Ela foi super gentil.
- O santo não bateu. Pronto.
- Eu tô chocado.
- Ué gente...
- Estamos juntos há quarenta anos. Por que nunca disse nada, mulher?
- Quis evitar a fadiga.
- E agora?
- Agora o quê?
- Agora você pode me alcançar a travessa de brócolis, né?
- Mas você sempre detestou brócolis!
- Não senhora, eu sempre amei. 


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Ricardo Rodrigues
6/7/2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Interconexões no Elevador





- Sobe? Qual seu andar?
- Terceiro, obrigado.
- Não por isso.
*subindo*
- Tenha uma boa tarde.
- Obrigado, boa tarde.

***

- Oi, como vai?
- Vou bem!
- Hora de ir embora.
- Pois é!
- Claro que choveria justo na hora de sair.
- Sim!!
- Mas amanhã vai fazer sol.
- Verdade. A moça do tempo falou.
- Boa noite, até amanhã!
- Até!

***

- Aqui não é o térreo, é o terceiro andar.
- Ai que coisa, parou, abriu e achei que já tinha chegado!
- Haha pois é! Acontece.

***

- Esse cachorro morde?
- Não não, é manso.
- Queria ter um, mas passo muito tempo fora.
- Ah sim. Tem que ter alguém que cuide nesse período, então.
- Pois é. Um bom dia!
- Bom dia.

***

- Desce?
- Sim.
- ...
- ...

***

- Amiga, quanto tempo, que saudade!
- Moro no andar de cima, sabe onde me achar.
- Grossa.

***

*CLUNC*
- Meu deus, que foi isso?
- O elevador parou.
- Isso eu sei, mas o que aconteceu?
- Como vou saber?
- Ai não posso com isso, tenho claustrofobia.
- Não vomita, tenho nojo.
- Não vou. Tô ficando sem ar, ajuda!
- Ajudar como?
- Não sei, faz algo!
- SOCORRO!
- Se for pra gritar eu grito.
- Mas você tá sem ar!
- Ainda não fiquei!
- Calma. Vou usar o interfone. Está mudo.
- Vô morre...
- Não vai.
- Como você sabe?
- Li todos os horóscopos hoje, e não tinha morte pra ninguém.
- Não acredito nessas coisas.
- Vai que né?
- Tá ficando tudo escuro. Vou desmaiar, me segura.
- É que a luz apagou.
- ...
*CLUNC*
- Voltou! Levanta, você não vai morrer.
- Parece que não, graças a Deus.
- Quer sair um dia desses?
- Topo.

***

Entrou no elevador, levantou a camiseta e fez várias selfies para postar no Instagram. Pela câmera de segurança, alguém se masturbava.

***

A jovem entrou no elevador. A senhora que lá estava falou horrores, de doença e da vida. A jovem nada respondeu porque estava com fones de ouvido. Na verdade o aparelho estava desligado, mas fingiu estar ligado pra não precisar conversar.
- Tenha um bom dia! - disse a senhora quando a moça saiu. Que nada respondeu.
A senhora entrou no apartamento, sentou no sofá e morreu.

Tudo o que queria era que alguém lhe desejasse bom dia. Morreu com a sensação de que teria um péssimo dia.


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Ricardo Rodrigues
3/7/2015

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O Call Center do Amor





- Alô boa tarde?
- Quem tá falando?
- É sua vida amorosa.
- Oi?
- Sim, sua vida amorosa.
- O que quer?
- Detectamos uma dívida no sistema.
- Que dívida?
- Aqui consta que você está em débito.
- Mas de que?
- Nenhuma das prestações do boleto do amor foram pagas.
- Boleto?
- Sim, senhor. Emitido quando você atingiu a adolescência.
- ...
- Todas as páginas estão ali com descrição variável. Tem os boletos dos amores rápidos e os boletos de amores longos. O senhor não efetuou o pagamento de nenhum.
- Mas... mas... pagar como isso, gente?
- Correspondendo a eles. Verificamos aqui que o senhor fugiu de todos. Usou temporariamente, descartou.
- Mas tem vezes que a gente não gosta de um produto, acontece.
- Senhor, não são produtos. São pessoas.
- Você... como sabe meu número?
- Tá no face.
- Tô.
- ...
- ...
- Senhor, foi uma piada. Mas voltando ao motivo desta ligação, queremos estar negociando uma forma de pagamento.
- Isso é um absurdo!
- Não é não. Está no contrato de vida sentimental.
- Eu não assinei nada!
- Senhor, aguarde um momento na linha.
*toca someone like you*
- Senhor, temos uma proposta para quitar o seu débito, mas ela vai estar durando por apenas 48 horas.
- Cobrança de vida amorosa também fala no gerúndio?
- Senhor, não é piada.
- Desculpa.
- Posso oferecer o plano?
- Isso deve ser uma brincadeira de mau gosto de algum amigo.
- Temos aqui uma série de pequenos casos amorosos e alguns mais profundos. O senhor reclama que ninguém lhe quer, mas quando alguém lhe quer, sai correndo. Os amores de bem não entendem o motivo do senhor fazer isso.
- Ei!!! E aqueles que fizeram o mesmo comigo?
- Foram pequenos avisos judiciais da cobrança que já estava em um valor elevado.
- O quê?
- O senhor pode perder o direito de não amar mais caso não pague o valor acumulado.
- Mas que valor, que é isso, como pagar essa joça?
- Responder aquela mensagem no whatsapp de ontem vai valer como a entrada.
- Mas eu não quero, não gostei, não me senti atraído!
- Então diga isso. Sempre é mais adulto falar do que deixar no vácuo, na esperança que a outra parte perceba, senhor.
- ...
- Isso vai abater uma parte da dívida.
- Mas eu não sei...
- E a primeira parcela das seis pode ser aceitar aquele convite pra sair, de quem o senhor julga que não faz seu tipo.
- Mas não faz!
- Tipo é muito relativo.
- Quem é você, afinal?
- Funcionário do Call Center do Amor. O seu, no caso. E na sequência, pode, caso não goste mesmo do encontro, aceitar que sua autoestima é tão baixa e que por isso está sempre se sabotando.  Aceitar isso vai estar abatendo outra parcela.
- ...
- Senhor, podemos estar fechando o contrato de pagamento?
- Eu...
- É muito simples. Mas se quiser pensar, fique à vontade, senhor. O Call Center do Amor agradece a sua atenção, tenha uma boa tarde.
Ele pegou o celular e mandou um whatsapp.
- Oi, tudo bem? Desculpe a demora em responder. Sim, aceito sair para jantar.

E largou o aparelho na mesinha. Melhor pagar logo a dívida, afinal, o coração é o pior agente de cobrança que pode existir. 


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Ricardo Rodrigues
1/7/2015

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A Senhora Fugitiva no Mundo das Gentes Grandes




O mundo é diferente a partir dos olhos de cada um. Por diferentes motivos. Mas para ela, aquela senhora tão minúscula que parecia peça perdida de algum jogo de tabuleiro, o mundo era gigante.

Ele a viu enquanto esperava o ônibus. Ela percorreu a fila, um por um, esticando sua mãozinha de boneca antiga, pedindo moedas. Fazia calor, e parecia que por dentro de um casaco peludo ela cozinhava em fogo brando.

Ele não tinha moedas. Talvez tivesse, mas não costumava entregar moedas. E sentiu-se um pouco mal. Nem tanto pela moeda não entregue.

Mas sim por imaginar quem era aquela minúscula.

Ele tinha essa mania. Imaginava a vida secreta de quem, de alguma forma, cruzava o seu caminho.

Talvez aquela senhora de aparência tão solitária fosse fugitiva de uma terra distante povoada por pessoas pequeninas. Talvez quisesse conhecer o mundo das gentes grandes. E talvez tenha descoberto que o mundo das gentes grandes era muitas vezes sem graça, difícil de entender. Talvez ela tenha conhecido gentes grandes que não eram gentis como esperava. Talvez ela tenha conhecido gentes grandes que não lhe estenderam a mão por causa de sua aparência. Talvez ela tenha esbarrado em gentes grandes que não se encaixavam no conceito de amor que, certamente, sua mãe pequena lia em livros quando era jovem na terra das pessoas pequenas.

Só que agora ela não pode mais voltar pra lá.

Ele a observou enquanto se afastava, com sua coluna de vovó arqueada, e pensou: "Como seria bom se você nunca tivesse ido embora daquele lugar".




23/10/2014



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Amor na Terapia - Sessão 5: Você recebeu alta, vá sonhar acordada






Naquele dia, que seria a quinta sessão de terapia, ela acordou com a sensação de que muito tempo havia se passado.

O tempo é relativo, diria o terapeuta. Pôde ouvir direitinho sua voz ao soltar aquela frase. E de fato era. Mas na verdade o tempo lhe pareceu ter passado mais rápido.

Tanto que sentiu até uma certa afeição por seu terapeuta.

Não sexualmente falando, mas sim de um jeito diferente. Ele já fazia parte da sua rotina.

Sentia prazer em arrumar-se para ir na terapia.

Não sabia dizer o quanto estava funcionando, ou se realmente estava, mas precisava continuar.

Havia acordado de tão bom humor que pensou em levar uma flor para a recepcionista, a senhorinha. Para o terapeuta não seria de bom tom, e nem profissional da parte dele aceitar.

No dia anterior, a senhorinha havia ligado para antecipar a consulta, pois o terapeuta teria um compromisso no horário em que costumava lhe atender.

“Tudo bem, sem problemas!”

E assim foi.  Como sairia mais cedo, daria tempo de um happy hour com as amigas, as quais toda semana perguntavam como estava a terapia.

Nunca tinha muito o que dizer.

Mas queria beber alguma coisa, conversar.

Queria contar que ainda não havia marcado o novo encontro com o tal homem, mas que estava decidida a não deixar passar.

E isso seria um dos pontos da sessão de hoje.



No consultório, entregou a flor para a senhorinha. Pela reação, nunca nenhum paciente havia feito tal gesto.

Ela agradeceu, ruborizada, e pediu que aguardasse enquanto o paciente anterior não saísse.

Havia música ambiente.

Era uma dessas rádios de elevador. E notou que havia umas revistas na mesinha de centro.

Revistas velhas de fofoca.

Se viu inundada por um ambiente tão chichê que sentiu um certo medo.

Era como se estivesse sendo forçada a sair daquela zona de conforto que era uma situação conhecida. Pensou isso, e riu, era como um terapeuta questionaria, talvez.

O paciente anterior saiu. Percebeu que era a primeira consulta, pois o olhar estranho era o mesmo que o seu naquele dia, cinco semanas atrás.

“Pode entrar”, disse a senhorinha.

Estranhou ele estar usando uma camisa que não fosse a xadrez em cores. Vestia uma camisa azul-marinho, um tanto formal. E usava sapatos Oxford. Digno de post de blogs de moda, pensou.

- Vamos começar. Você tem dormido bem?

Perguntou ele.

- Sim. Mas por quê?

- Quero saber se o seu sono tem sido satisfatório, se você tem sonhado durante ele.

- Ah... as vezes sim. Digo, sobre os sonhos. Por que tenho dormido até que bem. Às vezes demoro para pegar no sono, mas... espera, você não vai querer interpretar meus sonhos, né? Porque isso eu descubro comprando uma revistinha na banca ou pesquisando na internet.

Ele continuou em silêncio, e a expressão dura deixou-a tão desconcertada que sentiu seu corpo congelar.

Continuou falando.

- Enfim, eu... eu tenho dormido bem, e também sonhado.

- Você devia sonhar acordada, não dormindo. E não, eu não iria analisar seus sonhos. Embora, na psicanálise, costumamos dizer que dentro de cada um de nós há um outro que se comunica pelos sonhos. Jung.

- Quê?

- Nada.

Silêncio.

Ele anotou alguma coisa e disse.

- Você deveria sonhar mais acordada. Sim. Porque a gente sempre pressupõe que o sonho durante o sono é uma bobagem aleatória. O sonho em estado desperto, eu te digo, é o que vai mexer seu corpo pra conquistar isso.

Ela achou aquilo um tanto parecido com as mensagens dos livros estilo minuto de sabedoria, mas tinha um fundo de verdade.

- Você não é do tipo que costuma sonhar e projetar as coisas. Você é do tipo que senta no sofá assistindo Supercine desejando as coisas, mas com aquele misto de autopiedade que faz com que seja sempre a vítima. Você tem muitas qualidades, mas as anula com receio de que os outros vão achar inferiores. Você é tímida demais, e isso não é um problema de fato, mas os outros acabam vendo como um ponto negativo, como falta de interesse, toda vez que você fica calada, mas no fundo querendo expressar um universo inteiro. A vida, minha querida, a vida corre e galopeia que nem um cavalo xucro. A vida passa e o dia de hoje será mais esquecido que a carreira da artista que hoje você cultua. A vida é um meme que nasceu hoje pra ser inutilizado amanhã. A vida é uma maionese estragada que se você comeu depois de passar do ponto, vai sofrer e quem sabe morrer. A vida é uma xícara de café que se você esquece de beber, esfria e fica insuportável. Querida, a vida é aquele cupcake que você vê na vitrine da padaria e fica morrendo de vontade de comer, mas quando morde descobre que é seco. Mas é assim mesmo, se não o comesse, não saberia. A vida às vezes tem um gosto seco mesmo. A vida é como um relatório de desempenho no trabalho. Você odeia ter que relembrar certas partes, mas apontar os pontos ruins e positivos é bom para um resultado melhor no futuro. Por isso tenha em mente, querida, que você precisa preparar seu relatório. E nesse caso, pensar no que vale a pena.

Ela ficou estupefata.

Abobalhada mesmo. Todas aquelas palavras saíram como tiros de metralhadora.

“Acabei de levar um tiro aqui dentro do consultório”, pensou.

Achou que ele fosse meio maluco, mas as palavras faziam tanto sentido que não ousou reclamar.

Ela olhou pela janela e um vento fraco movimentava as árvores. Sim, ela usou esse cenário para imaginar a cena de um filme qualquer. Desses que ela via no Supercine se martirizando.

E por isso mesmo resolveu apertar o stop desse filme. E disse.

- Eu tenho sonhado muito acordada. Tenho sonhado com esse homem que quer sair comigo, tenho sonhado acordada com muitas coisas que vão mudar a minha vida em um longo prazo. Tenho sonhado acordada em me olhar no espelho e ver uma outra mulher dentro da mesma mulher. Tenho sonhado acordada com os períodos de solidão que sempre me colocaram tanto medo. Tenho sonhado acordada em participar da próxima sessão dessa terapia. Tenho sonhado acordada com os dias de verão que eu não vá reclamar tanto do calor. Tenho sonhado acordada com uma bateria de celular que dure mais tempo. Tenho sonhado acordada com o livro que vou retomar a leitura. Tenho sonhado acordada com o relógio fora da gaveta. Tenho sonhado. Apenas.

Ele ouvia tudo com atenção, e sem anotar nada.

Parecia ele o paciente curioso. Ela, a terapeuta o fazendo pensar.

Ficaram os dois em silêncio por cerca de dez minutos. Longos dez minutos.

Ela não tinha mais a sensação de precisar falar, mas sim a de que tudo tinha sido dito na hora certa.

E como se escutasse os seus pensamentos – talvez pudesse – ele falou:

- Estou te dando alta. Pode ir.

Ela achou um tanto absurdo, inesperado. Foram apenas cinco sessões.

Cinco sessões que haviam mexido com muitas coisas, era bem verdade.

Soltou outro de seus suspiros infantis, daqueles que estremecem as bochechas, levantou-se e apertou sua mão. Iria acertar a conta com a senhorinha.

E assim como qualquer outro paciente, ela fechou a porta, para nunca mais ser vista.




Era agora um momento que nenhum de seus pacientes conhecia.

Ele foi até a gaveta e pegou o relógio. Estava de fato estragado.

No seu celular, o horário informava que estava quase na hora de seu compromisso.

*Notificação de mensagem*

Era uma SMS. Uma mensagem que lhe doeu ler. Porque, quando se trata de um rompimento de amor recente, pequenas palavras, mesmo sem a intenção, acabam destrinchando uma ferida que tenta coagular o sangue.

Respirou fundo e saiu. Essa SMS seria mais um tópico a discutir na sua sessão de terapia. De fato, era o amor na terapia. Ou a falta dele.



FIM


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P.S.: Obra ficcional. O objetivo não é proporcionar nenhum tipo de diagnóstico. Em casos de algum problema, procure um profissional habilitado. :D