Júlia acordou de um sonho oceânico.
Assim que as luzes dos seus olhos apagaram, na noite
anterior, sentiu na pele a maresia. O
cheiro de peixe tocou suas narinas, mas podia ser o cheiro de sereias
naufragadas.
Avistou um barquinho de papel ancorado perto da praia. Era
nele que iria embarcar. Ficou impressionada que a água não danificava sua
estrutura.
Em sua mão esquerda um pequeno saco de tecido contendo doces
para a viagem.
Não sabia bem ao certo para onde estava indo. Superou seu
medo de água quando, com a ajuda de um pescador, subiu na dobradura. A
estrutura lhe pareceu bem sólida, por isso ficou mais tranquila.
“O sol vai bater no branco do papel e vou ficar cega”,
pensou, rindo. E não pôde deixar de ficar impressionada com o fato de, mesmo em
sonho, o mar ser tão azul. Azul como ficava a sua pele de vez em quando.
Deveria apenas ser reflexo.
O pescador empurrou o barco.
Júlia estava na proa do barquinho de papel, seus cabelos
vermelhos dançavam com a ventania. Achou que, por estar sonhando, não demoraria
para chegar. Mas nem sabia para onde estava indo.
Era como se o oceano representasse a sua vida fora do sono,
na consciência. Afinal, lá ela também não sabia de nada.
Uma sereia apareceu nadando e pulando para fora da água. Mas
a sereia não cantou, pois sua música não teria efeito sobre uma mulher.
E nem falou nada, apenas seguiu nadando. Júlia pensou estar
em um desenho da Disney.
O sol começou a baixar e Júlia ficou triste. Não gostava de
escuro. A sereia estava acostumada, pois vivia no escuro do fundo do mar. E já
não mais a via.
Acima de Júlia uma infinidade de novas constelações brigavam
entre si para ver quem pontilhava mais o papel negro do céu.
Não sabia mais há quanto tempo estava navegando. Havia visto
o sol e as estrelas muitas vezes. Os doces acabaram.
Júlia chorou porque estava sozinha em águas que não mais
acabavam. Lembrou que fora do sonho também era sozinha. Agora estava ali, em um
barco de papel sem rumo. Pelo menos acordada não era obrigada a ficar em alto
mar.
Numa dessas noites apareceu outra sereia. Mas não era a
mesma. Era uma sereia velha, de longos cabelos brancos, pele de aspecto
corroído e conchas quebradas a cobrir-lhe as tetas tristes.
Depois de observar com atenção entendeu que aquela era sim a
mesma sereia do início. Parecia uma sereia avó. Assim como da outra vez ela não
cantou, apenas nadou. Dessa vez com um pouco de dificuldade. Peixes velhos são
assim mesmo.
A sereia vovó lhe estendeu a mão e Júlia sentiu que ia
chorar de pena. Achou que criaturas como aquela não envelheciam nunca. Isso
significou que estava há muito tempo naquele barco de dobradura. Mais do que
podia contar.
Júlia chorou de novo, gritou, pediu para sair dali. Pediu para
acordar. Nada acontecia. Pediu então para achar a direção. Dizia para si mesma
que estava cansada de ver o tempo passar e ficar no mesmo lugar. Queria ancorar,
para depois navegar de novo. Queria conversar, queria mais doces, queria um
abraço.
A sereia velha se despediu e mergulhou de novo, e nunca mais
a viu. Talvez fosse a última de sua espécie.
Júlia acordou.
Sentou na cama para entender o sonho que teve, e entendeu
que naquele momento é que estava, realmente, sonhando.
Sua vida real era lá, naquele barco, presa entre mares que
não tinham mais praias para ancorar.
E entendeu que, ao menos em sonho, podia ter a oportunidade de fazer o que
quisesse.
14/8/2015
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