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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Amores WI-FI: Postzinho da Saudade :D







Olá!!!
É com muita alegria (e saudade) que publico hoje esse post. Portanto, é o POSTZINHO DA SAUDADE de Amores Wi-Fi *___* 
  
Separei algumas coisas legais pra quem acompanhou a novelinha.

Primeiramente, gravei um pequeno vídeo falando sobre o projeto.
Observação 1: Aumente o volume porque essa porcaria ficou com o áudio muito baixo e eu não arrumei porque não sei editar nada obrigado de nada.
Observação 2: Ao assistir lembrei porque nunca cogitei jornalismo de televisão: fico extremamente envergonhado, balanço a cabeça, mexo muito o corpo porque fico me apoiando mais numa perna do que na outra, enfim, desconsidere isso e preste atenção na mensagem.
P.S.: Realmente a minha cara no vídeo congelado, na miniatura, NÃO AJUDOU. 


***

Um dos elementos mais legais foi, sem dúvida, a trilha sonora, pensada de acordo com cada cena e sentimento de nossas queridas personagens. Portanto, abaixo, vocês podem baixar as músicas compiladinhas lindamente pelo meu amigo Rony Lins (temporadas 1 e 2), e a terceira, incluindo os bônus. Coloque no seu mp3 player e relembre das comédias e das tristezas das nossas queridas amigas.
P.S.: a trilha da cena inédita, postada lá em baixo, não consta na compilação. 




Temporada 1
1. Dionne Warwick - I'll Never Love This Way Again
2. Laura Marling - Ghosts
3. Tegan and Sara - I Couldn’t Be Your Friend
4. Paloma Faith - Love Only Leaves You Lonely
5. Rachael Yamagata - I Don’t Wanna Be Your Mother
6. Vonda Shepard - Alone Again, Naturally
7. Kátia - Qualquer Jeito -
8. Peter Bradley Adams - Heart Of a Girl



Temporada 2
1. Vonda Shepard - Love Is Alive (Feat. Anastacia)
2. P!nk - There You Go
3.  Beyoncé - Irreemplazable (Norteña Mix)
4. Robson Moura e Lino Krizz - Vem Dançar Com Tudo (Kuduro)
5. The Cardigans - Erase/Rewind
6. Kylie Minogue - The One
7. Kirk Franklin - Hello Fear
8. Lissie - Everywhere I Go
9. Cheryl Cole - Crazy Stupid Love (Feat. Tinie Tempah)
10. Shakira - Un Poco de Amor
11. The Bangles - Eternal Flame
12. Rosana Fiengo - Nem Um Toque
13. Cuff The Duke - Stay
14. Bonnie Tyler - Total Eclipse Of The Heart
15. Nikka Costa - Nothing
16.  Cyndi Lauper - True Colors
17. Marisa Monte - Verdade, Uma Ilusão
18. Robyn - Dancing On My Own



Temporada 3 - Pt. 1
1.  Lily Frost - Do What You Love
2.  M.I.A. - Doubble Bubble Trouble
3. David Bowie - Modern Love
4.  Cris Nicolotti - Vai Tomar No Cu
5. Milow - Against The Tide
6. Nana Caymmi - Amargura
7.  Jewel - Good Day
8. Carly Rae Jepsen - Melt With You
9. Jessie J - Domino
10. LeAnn Rimes - How Do I Live
11.  Cyndi Lauper - Time After Time
12. Ashley Monroe and Trent Dabbs – Laying Low
13. Cyndi Lauper - Change Of Heart
14. R.E.M.  - At My Most Beautiful
15. Jenny Lewis with The Watson Twins - Melt Your Heart
16.  Fábio Jr. - Sem Limites Pra Sonhar (Feat. Bonnie Tyler)
17. Cyndi Lauper - All Through The Night
18. The Wreckers - Tennessee
19. Robert Plant & Alison Krauss - Please Read The Letter



Temporada 3 - Pt. 2
1. Deana Carter - Strawberry Wine
2. Shania Twain - You’ve Got a Way
3.  Kacey Musgraves - Merry Go 'Round
4.  Blake Shelton - Boys 'Round Here (Feat. Pistol Annies & Friends)
5. Billy Currington - Don't
6. Chely Wright - She Went Out For Cigarettes
7.  Faith Hill - Let’s Make Love (Feat. Tim McGraw)
8. Willie Nelson - The Scientist
9. Sara Bareilles - Love Song
10. P!nk - Who Knew
11.  Orchestral Manoeuvres In The Dark - If You Leave
12. Grimes – Go (Feat. Blood Diamonds)
13.  Kiesza - What Is Love    
14. Sia - Big Girls Cry
15. Gram - Você Pode Ir Na Janela
16.  Jack & White - How’s Is Going To Be
17. Judy Garland - Somewhere Over Te Rainbow
18. Sara Bareilles - City
19. George Michael - Freedon! ‘90


***

Se você quiser ler de novo (ou para quem tá chegando agora e quiser iniciar a leitura), preparei um arquivo em pdf (em formato menor, pra quem quiser jogar num dispositivo móvel) e, assim, divertir-se com a história. No fim, relação completa das músicas e “episode guide”.




***

E claro que as coisas não param por aqui.
Para quem tá com saudades mesmo, abaixo uma cena inédita das nossas queridas meninas.
Aproveite ^_^



Amores Wi-Fi - Cena extra


Algumas semanas haviam se passado.
Bia estava tentando colar os cacos que se quebraram com o chute de Gabriel.
Marcela estava preparando-se, enfim, para conhecer o barbudo.
Naquela tarde de chuva, enquanto ouviam Frank Sinatra pra criar todo um clima (que para ambas tinha significados diferentes), o grupinho do whatsapp tocou.
As duas pegaram os seus telefones na mesma hora.
Era Tina, enlouquecida.
Tina: Meninas!
Tina: Ai por Deus vocês não sabem, tô grávida!
Ficaram em silêncio, olhando-se, e como se estivessem muito longe uma da outra, Bia e Marcela não trocaram uma palavra. Falaram tudo pelo telefone.
Marcela: Mas meu deus criatura!!! Tô passada!!
Bia: ...
Marcela: Tá feliz?
Perguntou, sem saber o que falar.
Tina: Tô no chão!! Tô apavorada!!!
Tina: Mas por outro lado, to emocionada. Apenas achei que não fosse achar alguém pra ser pai de um filho meu etc.
Marcela: Então mulher, passando o susto, aproveita!! Já contou pro Rafael?
Tina: Ainda não, ele foi na casa da mãe dele, fiz exame de farmacinha. Mas nem precisava fazer, to enjoando todo dia e mais inchada que balão de festa.
Tina :S
Bia: Parabéns Tina!! Mas ó, como é difícil escolher apenas uma, nós duas vamos ter que ser madrinhas.
Tina: hahaha acho justo!
Tina: Falamos depois, porque vou ter que vomitar agora. Bjos!
Tina: :D
As duas se olharam e sentiram um sopro de felicidade.
Porque, apesar de qualquer problema, era sempre bom ver um amigo querido feliz.

***

Bia estava, aos poucos, retomando a sua vida afetiva.
Agora mais comedida. Sem expectativas de nada.
Teve dois dates recentes.
O primeiro num domingo, e outro na segunda-feira.
No domingo, foi com um moço veterinário, super querido. Conversaram por horas e beberam cerveja.
No início Bia não sabia dizer se estava ou não atraída por ele, mas conforme o papo avançava e o álcool subia, ficou com vontade de beijá-lo.
Um beijo que só aconteceu na despedida.
E não se falaram mais.
Mas não lamentou, foi bom sair com alguém sem pressão, sem esperar alguma coisa.
O outro era químico.
E de cara rolou química. Ao menos para Bia.
Marcaram em um café super charmoso. Ao chegar lá, Bia se deparou com as portas fechadas.
O rapaz chegou logo depois, e foram atrás de um outro café.
Fazia calor, mas Bia pediu um expresso duplo.
Ele era gracioso, divertido, falante, e adorava filmes e séries.
Bia achou que não tinha despertado a atenção do rapaz, no entanto, ele não parava de falar, de perguntar, e quando estavam na rua, continuou falando. E Bia queria ir embora para assistir a estreia de uma novela nova.
Teve que se despedir, já que ele não tomava a iniciativa.
Sem beijo.
Por isso ficou a dúvida pendente, um descompasso entre o interesse e a falta de qualquer atitude.
Mas não se importou, e começou a ficar mais segura de si.
E feliz, porque dá pra ser feliz mesmo sem ninguém.

Marcela estava comprando as passagens para a viagem.
A viagem do barbudo.
Finalmente iria vê-lo ao vivo, e não pelas fotos de cada dia.
Na última, ele havia cortado o cabelo.
Estava lindo.
Marcela pensava: “ :3 :3 :3 :3 “
Ainda havia muito interesse entre ambos, algo que pode ser difícil de manter num caso como esse.
Mas eles estavam lá, dia após dia, conversando pela telinha do computador ou do celular.
Marcela não sabia qual ia ser a sua primeira reação. Se ficaria envergonhada, ou se, pela ~intimidade que adquiriram, se comportaria como uma velha conhecida.
E nem sabia ao certo se ele iria lhe querer. Os meandros da vida ao vivo podem ser complicados.
Só tinha uma certeza: não iria dispensar um abraço bem apertado.
Porque um abraço, mesmo que de amigo, seria uma grande prova de carinho.
Efetivou a compra e fechou o computador.


Agora, era só esperar.
Porque, por mais estapafúrdia que a novela de Gloria Perez tenha sido, seu conselho valia pra vida: é preciso saber voar. 



____________________________________________

É isso gente!
Espero que tenham curtido. Obrigado novamente pelos comentários todos e pelo carinho.

Ricardo. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Amores WI-FI - Temporada 3 episódio 10 (SERIES FINALE): A Estrada de Desktops Amarelos





Temporada 3
Episódio 10 – A estrada de desktops amarelos – SERIES FINALE


Trilha inicial deste episódio: https://www.youtube.com/watch?v=HaONHdLF55o


Bia sentia como se a sua vida fosse uma eterna mensagem de:

*File not found ERROR*

Já estava pensando em atualizar o seu status no Facebook para:

Mas resignou-se a ficar calada.
E não tocou uma palavra sequer com Gabriel. Nunca mais.
Bom, nunca mais não. Tempos depois, eventualmente, conversariam meia dúzia de palavras.
Mas Bia jamais tocou no assunto do namoro.
Esse recibo ela não quis passar. De amargurada.
Na verdade, o que a deixou chateada não foi o fato dele querer outra mulher. Afinal, eles não tinham nenhum compromisso. E talvez nem teriam.
O que a deixou mal foi o fato dele saber que Vitória era sua amiga, e mesmo assim, sair com ela ao mesmo tempo.
Não se tratava de lealdade, mas de respeito.
Enquanto digeria aquele prato pesadíssimo, ficou pensando que tipo de problema Gabriel haveria de ter, além de ser cretino. E concluiu que, nos dias atuais, o problema das pessoas é que elas, estando apenas ficando com alguém, namorando ou mesmo casadas, estão sempre com um olho aberto para alguma nova oportunidade que aparecer.
Não há um foco, não há entrega. Ninguém parece querer se dedicar pra ninguém com receio de perder algo que seja melhor. 
Às vezes pode ter. Quem vai saber? 
Dizem que só é possível curar uma decepção com outra.
Por enquanto, sua vontade era colocar todos os últimos caras que conheceu dentro de uma sala e entrar assim:


***


Bia acordou. Ou não dormiu.
Não soube dizer ao certo.
Estava com a cara mais amassada do que papel em processo de reciclagem.
E pensou que essa era uma boa metáfora. Após uma sequência de aborrecimentos, sendo que Gabriel conseguiu a proeza de ficar em primeiro lugar no ranking, iria se reciclar.
Precisava reavaliar a sua vida, os seus atos, a sua forma de enxergar os relacionamentos.
Não que tivesse culpa ao preencher o seu álbum de figurinhas de otários, mas talvez estivesse equivocada ao não perceber o barco furando.
Talvez Bia estivesse em um momento de tamanha necessidade de afeto que não percebeu a probabilidade de erro. Talvez não tenha percebido estar sempre em volta das mesmas situações.
Uns diriam que Bia estava sabotando a si mesma, ao procurar a morte anunciada dos seus casos amorosos como uma forma de se proteger. Mas não era isso.
Era uma mistura de carência com vontade de dar certo.
E sendo assim, Bia sempre tentou. E muitas vezes se deu mal.
Se estivesse em uma história de novela, Bia teria o seu capítulo de redenção já previsto lá na sinopse. Talvez até um casamento.
Mas Bia não estava em uma novela.
E estando na vida real, estava sujeita aos imprevistos. Aos desgostos. Às tentativas frustradas.
Podia ser que o seu “último capítulo” demorasse.
Constatando isso, desejou que aparecesse um letreiro na tela da sua vida dizendo: anos depois.
E que acordasse diferente. Com menos incidentes afetivos, com uma história melhor pra recordar.
Só queria que o tempo passasse.

***


Na cozinha Marcela estava conversando com o barbudo pelo Facebook.
Quando viu Bia entrar percebeu que algum estrago muito grande havia sido feito.
- Barbudo, volto já. Tenho um problema aqui com Bia.

*Barbudo sent you a sticker*

Bia relatou o ocorrido, com requintes da melhor narrativa dramática.
Marcela ficou chocada. Pelo tanto que Bia contava, achou que Gabriel fosse diferente.
- Mas não dá pra generalizar – falou Marcela – o fato de você ter preenchido um álbum inteiro com figurinhas de otários não quer dizer que todos são iguais. Existem caras diferentes.
- Cê jura?
- Sim. E olhe que depois do que me aconteceu, poderia ter perdido a fé no sexo masculino. Mas to aqui. Pronta. Se por um acaso nenhum homem prestar pra namorar, você vai se divertir com todos os errados, porque você é uma mulher incrível.
Marcela falou aquilo porque em parte era verdade, mas sabia que a amiga queria viver uma história diferente. Ela também queria.
Marcela tentava entender, enquanto ouvia a amiga desabafar, a lógica das pessoas. Havia muito “mais amor por favor” e pouca aplicação dessa ideia.
Entendia que esse “mais amor por favor” valia para todo o tipo de afeto. Mas quem escrevia isso nos muros e utilizava como status no Facebook ou em legendas do Instagram falava em amor, aquele que envolve o sexo (ou nem sempre). O amor que não envolve apenas a amizade.
As pessoas parecem gostar de um amor de rede social.
Aquele que muda o status, compartilha fotos, num esforço sobre-humano para dizer que há felicidade.
Às vezes tem, muitas vezes não.
Talvez, se Bia continuasse com Gabriel, fosse se tornar uma dessas pessoas.
Sua amiga queria tanto se sentir feliz que poderia passar facilmente ao estágio de quem importa mais mostrar aos outros do que a si mesma que está realizada.
Ou, quem sabe, fosse aprender a se relacionar com os próprios erros.
Não há como saber.

***

Mais tarde, na saído do trabalho, Bia marcou de encontrar Marcela para passar um pouco do tempo.
Quando saía do prédio recebeu uma notificação no celular.
Era mensagem de Eduardo.
Eduardo: Oi Bia, nossa, você está usando cada vez mais maquiagem hein?
Falou, certamente ao ver uma fotografia recente.
Se estivesse com paciência mandaria a seguinte mensagem:


Mas deixou pra lá.
Eduardo Já havia ficado pra trás.

Quando encontrou Marcela já estava anoitecendo.
As luzes da cidade pareciam mais apagadas do que o normal.
Mas para Marcela, elas estavam cheias de cores vibrantes.
Certamente o estado emocional de cada uma delas fornecia uma percepção diferenciada da própria realidade.
Marcela tratou de fazer tudo o que faziam juntas quando saíam; olharam as lojas, lembraram histórias antigas, riram de piadas esquecidas mas que já haviam sido contadas, para que Bia deixasse de lado, pelo tempo que fosse possível, das rasteiras da vida, essa bandida invisível.
E funcionou.
Viu a amiga sorrir, parecendo menos perdida naquela noite.
Bia entendeu, também, que não havia problema em ficar sozinha. A realização não depende unicamente de estar com alguém.
E assim, quando o movimento nas ruas diminuiu e um outro universo tomava conta das ruas, resolveram voltar pra casa.

***

Bia foi dormir assim que chegou.
Era o momento apenas de Marcela e o barbudo.
Era mais do que claro o nível de entrosamento dos dois.
Marcela pensava no quanto dizia a si mesma, de vez em quando, pra ser racional, mas porque ficar pensando no que é certo ou errado? Não havia como dizer que era errado sorrir feito uma boba toda vez que conversavam.
Porque era assim que se sentia.
Marcela tentava não se importar cada vez que o pessimismo batia na porta.
Marcela tinha medo, claro que tinha.
Medo de se decepcionar, de não agradar, de se sentir triste. Todos diziam para deixar de ter medo. Mas não dá para deixar de tê-los. Enfrentá-los sim.
E era isso que faria, muito em breve.
Porque cada vez que conversavam, era uma surpresa.
O barbudo disse que iria levá-la para comer tomates verdes fritos quando fosse visitá-lo.
Marcela sorriu por dentro.
Aquele sorriso que, se fosse em um filme fatástico, aconteceria em forma de uma nuvem mágica enchendo os espaços.
Porque Tomates Verdes Fritos era um de seus filmes favoritos.
Eram pequenas coincidências que só reforçavam a sua vontade.
Não sabia nada do futuro, mas sabia do presente. E pensando nisso foi dormir.
Naquela noite, Marcela teria um sonho estranho.

O sonho de Marcela


Naquela noite Marcela teve um sonho cheio de metáforas.
Viu-se percorrendo uma estrada amarela. Ela era uma Dorothy que vinha do mundo fracassado dos relacionamentos, carregada por uma tempestade emocional, e parava em uma desconhecida terra chamada internet.
Uma bruxa boa lhe perguntou o que desejava.
- Achar um relacionamento de verdade.
A bruxa riu. Mas mandou que ela seguisse a estrada de desktops amarelos para encontrar a resposta.
E nela estavam as criaturas mais incríveis, que representavam homens que havia conhecido em sua trajetória no mundo real: um espantalho, que como diz o nome, era aquele que não dava medo, e que não tinha nada na cabeça.
O homem de lata sem coração.
E o leão, o covarde que não conseguia dizer a verdade na cara.
Naquele mundo fantástico, Marcela precisava seguir a estrada e chegar até o Grande Mágico do Modem. Era ele que poderia ajudar a potencializar o seu sinal de wi-fi nessa busca pela conexão a dois.
Mas quando Marcela chegasse na frente do Grande Modem, precisaria decidir se apostaria de fato nesse meio virtual ou se gostaria de voltar pro seu mundo e enfrentar os tipos que já conhecia.
Marcela entendeu que, na verdade, não havia distinção entre os dois mundos. E que chegar até o mágico não faria a menor diferença.
Mas aceitou um sinal wi-fi mais poderoso. Afinal, tinha muitos filmes e séries para baixar.
E além do mais, era por esse caminho que chegaria até o barbudo.
Ainda no sonho, olhou para o céu e as nuvens passavam rápido demais.
- É a velocidade da internet aumentando! – Disse o Grande Modem – Você precisa voltar, antes que o sinal caia de vez!!

E Marcela acordou com uma sensação estranha.
Encharcada de suor.
Estranhamente, o sinal wi-fi havia caído.
Foi até a cozinha beber um copo de água e viu Bia sentada no sofá, iluminada pela luz do abajur. Achou aquela cena o cúmulo da depressão. Mas de fato ela estava deprimida.
- Quer conversar?
- Ai. Na verdade, não.
Respondeu, com a voz cortada igual sinal de celular no túnel.
- Sabe Bia, essas nossas experiências ruins não serão em vão.  Depois que essa merda toda passar, você vai ser uma mulher diferente. Não é papo de livro de autoajuda não, é verdade. Eu sou a maior prova.
Bia fez um sinal qualquer com a cabeça, mas não falou nada.
Ficaram as duas em silêncio, uma de frente para a outra.
Eram tão parecidas, em tantos aspectos, que podiam, seguramente, afirmar que uma era a versão do passado e a outra a versão do presente de uma mesma mulher.
As histórias se cruzavam de tal forma que uma entendia a outra sem precisar de nenhuma explicação.
Ambas viveram momentos iguais, porém em épocas diferentes.
Nessa trajetória de relacionamentos, elas viveram experiências bastante intensas.
Havia uma ideia de que o mundo só saberia se relacionar por meio da internet. Havia uma ideia de que na internet era mais fácil, que a oferta poderia ser maior. Mas elas entenderam que as pessoas da internet são as mesmas que elas já conheciam, ou seja, são as pessoas do mundo real inseridas em plataformas diferentes.
Entenderam que elas apenas comportavam-se de outra forma. Mas no fundo, continuava tudo igual.
A internet havia facilitado a aproximação. Havia eliminado algumas etapas mais difíceis, e também aberto espaço para o imediatismo.
Nenhuma delas sabia dizer em que pé isso tudo ia acabar. Talvez existisse uma estrada de desktops amarelos para percorrer, com respostas ao final. Ou talvez fosse surgir uma nova maneira das pessoas encararem – e teorizarem – os relacionamentos.
Enquanto isso, a única coisa que podiam fazer era permanecer no mundo real, pisando nos terrenos desconhecidos, porque é assim que aprenderiam a identificar as oportunidades, quando elas aparecessem.
- Já está quase amanhecendo, que tal irmos naquela padaria aqui perto e tomar um bom café da manhã?
Disse Marcela.
E pra animar a amiga, colocou uma música que elas costumavam ouvir quando estavam de mal com o mundo.


- Deixe a música mexer seu corpo, você vai se sentir nova!
Mas era mentira, assim que a música acabasse, Bia ficaria depressiva novamente.
As duas vestiram um agasalho e saíram cantarolando.
Quando chegaram na calçada, Bia, num reflexo costumeiro, pegou o celular para conferir as notificações.
Mas o sinal wi-fi havia ficado pra trás.
“Tudo bem”, pensou.
Às vezes, era bom viver um pouco a realidade.



FIM

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Amores WI-FI - Temporada 3 Episódio 9: O Que é o Amor?





Temporada 3
Episódio 9 – O que é o amor?


Trilha inicial deste episódio: http://www.youtube.com/watch?v=Q4oEsjO4LpM


Bia acordou disposta naquele domingo. Não apenas porque teria um novo encontro com Gabriel, que havia lhe prometido umas novidades musicais, mas porque estava apenas bem disposta.
Mentira, estava ansiosa pelo encontro.
Estava tão ansiosa que mandou uma mensagem no grupinho do Whatsapp.
Bia: Oi meninas!!
Bia: Estou ansiosa hoje, vamos almoçar todas juntas?
Bia: <3 nbsp="" p="">
Bia: tô nervosa
Tina: Oi Bia!! Sdds!! <3 p="">
Tina: Por mim pode ser estou livre :D
Marcela: É verdade, Bia está uma pilha! Vamos sim gente.
Bia: Depois vou encontrar Gabriel.
Bia: Até logo mais Tina, no restaurante de sempre :D
Tina: Ok!!! Bjos gente =*

***

Tina chegou, e estava diferente.
Uma boa parte era por conta de Rafael, mas muito se devia à reflexão que teve diante do espelho naquela noite, antes de sair pelada dançando Jessie J pela casa.
Havia uma autenticidade em seu jeito de ser que antes era impossível de notar.
Tina estava se dando a oportunidade de ser quem era. Com todos os defeitos que tinha direito, inclusive. Mas autêntica.
- E então Bia, quer dizer que a coisa está engrenando? – perguntou ela.
- Olha, não sei. Apesar de ter passado semanas, será recém nosso terceiro encontro. Vocês sabem né, a síndrome dos...
- Não complete a frase! – Falou Tina – Vai atrair coisa ruim!
Bia e Marcela riram da ingenuidade de Tina, afinal, a simples menção não iria causar a tragédia.
- Relaxa, Bia – disse Marcela – vocês estão super bem entrosados, vai levando na boa, sem maiores expectativas, que tudo se encaminha bem. E falando em entrosados...
Tina riu, sem jeito.
- Sim, estamos entrosados. Rafael é um querido. Quando estou na casa dele, ou ele na minha, temos nossas rotinas particulares. Ficamos juntos, mas também ficamos sozinhos. Enquanto ele ouve as músicas country dele, sentado em sua poltrona favorita, eu faço as minhas pesquisas por emprego. Ainda não apareceu nada, mas vai.
Tina, enfim, havia virado gente grande.
Seu jeito meio maluco ainda estava lá, porém havia aprendido algumas lições, e assim, pôde olhar para o que realmente importava.
Rafael, de vez em quando, agia como se estivesse num dos filmes que Tina assistia na adolescência. Pretty In Pink era o seu favorito, e não perdia uma reprise. Ao menos era assim que ele a fazia se sentir.
Um pouco mais especial do que achava que era.
Bia relembrou que na sua adolescência fora extremamente alheia ao mundo.
- Eu era confusa em muitos aspectos. Sabe dúvida de tudo? Essa era eu.
Bia não namorava.
Bia não frequentava festas.
Bia não tinha amigos fora da escola.
Mas Bia não era infeliz, ao contrário do que as amigas constatavam enquanto contava.
Hoje lamenta em parte ter sido uma menina tão reclusa e tímida, mas cada um tem o seu próprio jeito.
O tempo há de adaptar as pessoas aos requisitos da vida.
Marcela contou sobre o barbudo.
- Quer dizer então que a senhorita está envolvida?
Questionou Tina.
- Sim, há um envolvimento.
Marcela continuou contando sobre o barbudo para Tina. Enquanto isso, Bia saía apressada para encontrar Gabriel. O tempo voou e nem percebeu.
Saiu com o vento bagunçando seus cabelos.
Parecia ter saído de uma cena de Sex & The City.

***


Bia encontrou Gabriel no parque da cidade. Ele estava super carinhoso, como sempre.
No dia seguinte seria seu aniversário, mas Bia não quis perguntar nada sobre possíveis comemorações.
Deixou que ele a convidasse, caso fizesse algo.
Eles escolheram um banco que ficava no caminho de passeio. De início Bia ficou um pouco sem jeito, não estava acostumada a receber beijos e abraços diante de tantas pessoas.
Mas “azar”, pensou.
Era o seu momento.
Gostava do fato de Gabriel lhe olhar fundo nos olhos. Passava confiança, e também segurança.
- Como foram seus dias?
Perguntou ele.
Mas nem havia necessidade de perguntar, porque eles conversavam diariamente pelo Facebook. Mas achou carinhoso o seu interesse.
- Foi tudo bem. Nenhuma novidade. O trabalho segue do mesmo jeito, Marcela e eu não temos saído muito.
- Eu só tenho saído para ir na casa de uns amigos. De vez em quando nos reunimos. Pra beber, jogar conversa fora, e depois dormimos.
Gabriel disse que, numa dessas reuniões, iria levá-la para conhecer aqueles que, conforme ela já havia entendido, eram pessoas muito especiais para ele.
De vez em quando os dois ficavam alguns minutos em silêncio. Bia encostava a cabeça em seu ombro, ou, disfarçadamente, ficava observando o desenho do seu maxilar.
Já havia feito isso outras vezes. Ficava observando cada detalhe seu, para relembrar quando chegasse em casa.
A tarde foi caindo devagar. E a noite trazia consigo as luzes artificiais que possibilitavam o movimento dos casais pela cidade.

***

Marcela estava sem 3G, e tinha pressa de chegar em casa.
Queria falar com o barbudo. Saber como ele estava. Apenas ganhar um oi.
Pra ela era o suficiente em meio aos caos de sua rotina diária.
Depois de uma tarde papando com Tina, ouvindo maravilhas sobre Rafael e parabenizando-a por todos esses momentos que ela bem merecia, era hora de ter o seu momento.
Chegou em casa e antes de qualquer coisa ligou o computador. Porque, como estava um caco, demoraria para iniciar.
Nesse meio tempo foi colocar uma roupa mais confortável. Espiou pelo wi-fi do celular e sim, havia uma mensagem do barbudo.
No texto, ele contava que estava bebendo alguns drinks com amigos. Mas queria saber como ela estava.
Não esperou o computador ligar. Aquela carroça do inferno.
- Estou bem, passei horas com uma amiga, cheguei agora.
Barbudo contou que estava planejando levá-la por vários lugares quando fosse visitá-lo.
Cafés, galerias, restaurantes.
Marcela acompanhava tudo animadíssima. Lembrou-se que Romeu não planejava nem uma ida até o buteco da esquina. Se não tomasse iniciativa, viveriam em casa.
Mas passado é passado, e o seu estava lá, com a cafeteira.
Ele também falou que iria cozinhar para ela.

*Barbudo sent you a sticker*

Marcela riu de fofura.
Ela disse que cozinhava muito mal, mas lavaria toda a louça. E que enquanto ele cozinhasse, ficaria na cozinha, ajudando a picar tomates ou cebolas e roubando beijos.
- Isso é importante. Vou gostar da sua companhia lá. É chato preparar tudo sozinho, sem ter com quem conversar.

*Marcela sent a sticker*

- Hahahaha sim, vamos formar uma ótima dupla.
Falou ele.
- :3
- :3

E se despediram, pois ele precisava dar atenção aos amigos.

Assim que fechou o Facebook Bia chegou.
Estava radiante.
- Transou, amiga?
Brincou Marcela.
- Nããão haha, passamos o dia juntos, e depois fomos em um bar beber cerveja e comer alguma coisa. E estou exausta, vou pra cama.
Bia tomou banho e se deitou. Teve o cuidado de não adormecer em seguida, queria repassar cada lembrança do dia.

***


Bia chegou no trabalho cedo. Era aniversário de Gabriel, queria pensar em um post bacana para publicar no seu Facebook.
Não era muito a favor dessas coisas, não costumava fazer, mas achou que para ele valeria a pena.
Pesquisou uma imagem carregada com uma certa dose de fofura e escreveu algumas frases inspiradas.
“Foi”, pensou.
Gabriel, que estava sempre online, demorou para curtir a postagem.
“Ok, geralmente os aniversariantes curtiam no dia seguinte”, e foi fazer o seu trabalho.
Um pouco depois veio a notificação. Era um comentário de Gabriel.
“Ah, obrigado!”, escreveu ele.
Bia ficou com uma cara de quem é molhada por um carro que passa correndo pela poça de água.
Mas ok, foi continuar trabalhando.
Durante a tarde, viu que ele criou um post convidando uma enorme turma de amigos para comemorar o seu aniversário logo mais. Marcou um por um.
E seu nome não estava lá.
Convidou até uma amiga sua, uma amiga que tinham em comum, e ela não. A Vitória, e ela não.
Estava oficialmente #chatiada.
Porém isso não foi o que mais lhe atingiu.
Quando chegou em casa, no início da noite, abriu o Facebook. E leu uma atualização de status na  página de Gabriel.


* Gabriel está em um relacionamento sério com Vitória* 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Amores WI-FI - Temporada 3 Episódio 8: Confiável, Legal Sexy





Temporada 3
Episódio 8 – Confiável, Legal, Sexy


Trilha inicial deste episódio: https://www.youtube.com/watch?v=qi7Yh16dA0w


Três semanas haviam se passado.
Nesse tempo, as histórias avançaram na velocidade do melhor provedor de internet que Bia e Marcela podiam ter.
E isso era ótimo.
As duas estavam vivendo situações que funcionavam como se fossem um sopro de vento em dia de calor torturante.
Depois de tanto contratempo afetivo, enfim momentos para respirar.
Era a mesma sensação de um torrent que havia parado em 99% há dias e voltava a baixar o arquivo de repente.
Era uma sensação muito mais incrível do que 500 match seguidos no Tinder.
Muito mais empolgante do que receber notificação e não ser de convite para jogo no Facebook.

***

Nessas semanas, Marcela contou os dias.
Não os que passavam, mas os que faltavam.
Porque estava cogitando conhecer o barbudo que morava do outro lado da telinha do seu computador.
O homem que, de tanto conversar, aparecia no topo da sua lista de contatos no chat do Facebook.
Marcela precisava ser franca com ela mesma às vezes, e buscar um pouco de frieza para avaliar o que fazer.
Não era mais criança, e nem era uma mulher iludida.
Mas olhava as fotos e as mensagens dele e todas as suas certezas de mulher madura e consciente caíam mais que o seu sinal de internet em dia de chuvarada.
Não que estivesse pesquisando vestido de noiva e afins, apenas queria desfrutar daquele momento de reciprocidade.
O quanto iria durar? Nenhum deles sabia.
Aliás, esse foi um dos tópicos de algumas conversas que tiveram. Entre tantos papos, a possibilidade de se gostarem e de ver no que isso ia resultar acabava entrando em pauta.
- Tento não pensar nisso, mas se nos encontrarmos mesmo, já penso em como vai ser a hora de ir embora.
Falava ele, seguido por um emoticon triste.
Marcela respondia com outro emoticon triste.
:(
E ele falava, sempre:
- Não vamos pensar nisso.
Mas Marcela pensava.
Porque gostava de esgotar as possibilidades, boas e ruins, mesmo que fossem apenas suposições.
Nelas, eles se curtiam ao vivo.
Mas também não se curtiam.
Nelas, eles se curtiam, ficavam juntos e depois se tornavam amigos.
Nelas, eles viviam uma história mais consistente.
Nelas, eles nem chegavam a se conhecer.
Afinal, Marcela sabia que havia uma distância enorme. Uma distância apenas geográfica, porque de resto, eram como se fossem vizinhos. Moradores de um mesmo andar, que batem na porta um do outro para pedir açúcar.
Marcela sabia que a distância podia desgastar o interesse, e por isso “ameaçava” a sorte do moço com a boca do sapo costurada.
- Um dia – contou ele – um astrólogo disse que eu iria encontrar um amor num período que antecede qualquer possibilidade de nos vermos.
- Ah é? Pois desde já vou costurar o nome dele na boca do sapo. E você vai ficar sozinho.
E assim brincavam.
E assim, passaram as semanas.
Vinte e um dias em que nunca, em todo o seu tempo de redes sociais, usou tantas vezes os símbolos:
:3
(coração) 

***

Bia e Gabriel encontraram-se novamente naquele intervalo de tempo.
Em outro bar.
Foi um encontro com o objetivo de aprofundar fatos da vida um do outro. Além, claro, da inevitável troca de beijos.
Gabriel relevou detalhes da sua vida, era o tipo de coisa que só acontece quando se tem intimidade e confiança.
Bia sentiu-se recompensada por isso.
Entre tantos fatos, Bia concluiu que Gabriel havia passado por muita coisa difícil na vida. Até sentiu-se mal por todas as vezes que reclamou sem um motivo realmente verdadeiro.
As suas reclamações, nos últimos tempos, eram em função de problema com homem.
Seja pela falta, seja pela qualidade ruim dos que apareciam.
- Vamos pedir cerveja?
Perguntou Gabriel.
E assim, a cerveja e os beijos eram os únicos motivos que o faziam parar de conversar, de contar alguma história que envolvia familiares ou os seus melhores amigos.
Bia gostava de conhecer aquelas histórias, pois sentia-se parte de alguma coisa.
Afinal, não era todo mundo que compartilhava histórias tão importantes com alguém que ainda não conhece direito.
Com exceção das senhorinhas na rua que contavam qualquer coisa para o primeiro estranho que aparecesse e que tivesse paciência para escutar.

***

Desde que a notícia de que o Orkut iria suspender suas operações definitivamente foi publicada, semanas antes, as meninas mergulharam num mar de nostalgia sem fim.
Sim, suas contas ainda existiam, embora inseridas num limbo muito profundo.
Deep web.
E só hoje Bia resolveu abrir o seu antigo perfil; sua primeira experiência nas redes sociais, e vasculhar um passado que nem sempre foi bom.
Foi lá que aconteceram suas primeiras experiências efetivas de relacionamento virtual. No sentido de flertar, trocar mensagens.
Mas foi lá, também, que teve um namoro de verdade. Relâmpago, mas teve.
Com mudança de status, fotos e tudo o mais.
Abriu a página inicial e conferiu as visitas recentes. Ainda tinha gente visitando seu perfil.
Os milhares de scraps animados ainda estavam lá.
As fotos do tempo que era feia e não sabia. E ninguém teve a decência de lhe avisar.
Apagou todas.
Olhando aquela página, percebeu que com a sua extinção iria com ela todas as suas cotações de confiável, legal e sexy. Não que acreditasse muito nelas.
Mas também iria embora uma série de desgostos amorosos, essas paixonites que desde aquela época nunca chegaram a acontecer.
Quantos recados secretos deixou por depoimento e os cretinos aceitaram só para zuar.
Quantos scraps enviados, e jamais respondidos.
Quantos convites de amizade negados.
Não fez questão de salvar nenhuma informação.
E olhando os vídeos que publicava, achou um que a fez lembrar o quanto a sua vida amorosa tinha sido cagada por ser real demais: https://www.youtube.com/watch?v=uy0HNWto0UY
Bia sentiu-se um pouco #chatiada ao lembrar-se daquela época.
E enquanto se preparava para abandonar de vez a sua conta, uma mensagem na outra aba pediu sua atenção.
Era Gabriel.
De todo aquele passado, lamentou apenas por ter acreditado, sempre, na  maldita sorte do dia.

E colocou pra tocar uma canção que embalava suas amarguras: https://www.youtube.com/watch?v=NJWIbIe0N90


terça-feira, 1 de julho de 2014

Amores WI-FI - Temporada 3 Episódio 7: Não Temos Passado, Mas Queremos Voltar No Tempo





Temporada 3
Episódio 7 – Não temos passado, mas queremos voltar no tempo  

Trilha inicial deste episódio: https://www.youtube.com/watch?v=ZONKoKIQ9RY

Rafael murchou mais do que balão de festa estourado.
Até estava preparado para uma recusa, mas não assim, à queima roupa. Nem ao menos Tina pediu um tempo para pensar.
Suas idealizações de romantismo corriam pelo ralo naquele momento.
- Não?
- Não, Rafael.
Tina pegou a bolsinha da mão de Rafael, catou sua chave e colocou na porta.
- Não, porque, pelo fato de nós não termos nenhum passado, precisamos ter alguma história em comum. Entende? O que eu quis dizer com “não” é que eu quero começar do zero com você, já que não dá pra voltar e fazer de novo. Quero deixar aqueles fantasmas pra trás. Passar a limpo, sem truques de corretivo líquido. Quero ficar com você sim, e se tudo der certo, num futuro, ser sua namorada.
Tina estava pasma com sua própria maturidade. Achou até que estivesse possuída por algum espírito que regia os relacionamentos.
Rafael compreendeu, e o balão murcho do seu romantismo até se inflou um pouco.
E assim, sem medo de ser julgada, Tina convidou Rafael para entrar.

***

No dia seguinte Bia preparava-se para o seu date.
Estava ansiosa para conhecer Gabriel, embora com medo de levar outro bolo.
Mas não levou.
Em um bar prestes a ser fechado para sempre, sentou-se para esperar o rapaz. Preferiu uma mesa na área externa. Caso levasse bolo, teria menos pessoas para ver sua cara de derrotada.
Gabriel chegou pouco depois, vestindo o mesmo moletom que usava na foto de seu perfil.
O achou super interessante ao vivo.
Bia estava consciente em não elaborar nenhum perfil para agradar. Se tivesse que criticar algo que ele gostasse, iria criticar. E elogiar também. 
Mas o que aconteceu foi que não encontrou nada que, num primeiro momento, pudesse discordar.

Gabriel era um rapaz de muito boa conversa. E para seu deleite, citou diversos filmes que adorava, por exemplo, e indicou outros que nunca tinha ouvido falar.
Beberam cerveja e trocaram olhares.
Bia adorava esse momento, em que o flerte era recíproco, e se instaurava um clima delicioso em que o beijo é certo no final. Ou no meio.
Aquele date estava sendo diferente em muitos aspectos. Nem pareciam os costumeiros dates marcados pela internet. Não havia aquela frieza percebida após cada um sair para longe de seu modem. Ao vivo, era tudo sempre diferente.
Com Gabriel, sentiu-se conversando com alguém que já conhecia há muito tempo.
“Só podia ser um ótimo sinal”, pensou.
Gabriel Estava trazendo um novo frescor no modo de Bia se relacionar. 
Bia ainda não sabia, mas a passagem de Gabriel por sua vida seria considerada um antes e depois no modo como via a si mesma.

- Bom, acho que está ficando tarde.
Disse Gabriel. Bia concordou apenas com um sorrisinho.
E ficou aquele silêncio, seguido por uma troca de olhares.
Era o momento pré-beijo.
Bia sabia que iam se beijar, mas não tomou nenhuma atitude.
Eles se levantaram para pagar o consumo da noite. Mas Gabriel se virou e a beijou ali mesmo, na porta, interrompendo o fluxo.
Bia ouviu comentários descontentes ao redor, mas não se importou.
Aquele momento era dela.

***

Marcela continuava no bate-papo com o barbudo, em vários momentos do dia.
Achava um tanto desconcertante aquele interesse todo, mas na verdade era porque não estava tão habituada (em função de suas últimas experiências e por saber que não estava num filme). Depois de Romeu e Márcio havia ficado um tanto endurecida, mas agora estava se deixando levar por uma conversa extremamente deliciosa.
Eram muitas as referências: gostos, manias, vontades.
O barbudo tinha uma sensualidade quase inocente, do tipo que existe sem talvez ele próprio saber. E isso a deixava meio boba. Encantada.
Marcela contou que estava solteira há um bom tempo.
Contou sobre Romeu, dos anos intensos de namoro, e da maneira como tudo terminou.
Marcela disse que, hoje, o que mais lamentava era a saudade da boa cafeteira que ele levou embora.
Falaram sobre os relacionamentos modernos, e inevitavelmente caíram no assunto internet.
E foi interessante, para Marcela, saber que o barbudo tinha ideias tão particulares e tão parecidas com as dela.
- Barbudo, um dia vou escrever uma novela sobre esse tema, porque existe por aí muitas histórias verdadeiras para contar.
O mais bacana daquelas conversas todas era que, de cada dois diálogos, um era:
- :3
- :3
Ou então:
- (coração)
- (coração)
Em outras circunstâncias Marcela estaria contida, mas por outro lado pensou que, às vezes, é bom cometer pequeninas loucuras.
E não estava arrependia.

***


Algumas horas antes, naquela manhã, ao se despedir de Rafael, Tina viveu um momento diferente.
Amanheceu verdadeiramente ao lado de um homem, mas dessa vez, sem a certeza de ter sido a única vez.
Rafael colocou algumas músicas country pra tocar no seu iPod, e preparou um café bem suave para Tina.
Ela fez algo que sempre quis: vestiu a camisa de Rafael para acompanhá-lo até a cozinha.
Vendo o moço ali, a tratando com carinho, teve certeza de fazer a coisa certa ao recusar o namoro.
E assim, como se fosse o trailer de um filme da Julia Roberts, desses em que tudo dá certo, Tina nunca mais entrou em nenhum flashback traumático. Fez questão de deixar o passado em seu devido lugar. Sua VHS não mais seria rebobinada, porque todas aquelas histórias tristes ficariam, a partir de agora, no trecho da fita mastigada pelo videocassete.

_____________________________
Bônus deste capítulo:
Algumas faixas que estavam na playlist (em sua maioria romântica) do iPod de Rafael.

Robert Plant & Alison Krauss - Please Read The Letter

Deana Carter: Strawberry Wine

Shania Twain: You’ve Got a Way

Kacey Musgraves - Merry Go 'Round

Blake Shelton - Boys 'Round Here (feat. Pistol Annies & Friends)

Billy Currington - Don't

Chely Wright –She Went Out For Cigarettes

Faith Hill & Tim McGraw

Willie Nelson – The Scientist (porque Rafael tinha um “q” de consciência ecológica às vezes)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Amores WI-FI - Temporada 3 Episódio 6: Run Tina, Run




Temporada 3
Episódio 6 – Run Tina, Run


Tina ficou tensa com a seriedade de Rafael.
O que será que ele ia dizer?
Ainda tinha a nítida sensação de que iria ser alvo de alguma piada colegial digna de filmes.
Chegou a olhar discretamente para os lados procurando movimentos estranhos ou câmeras de vídeo.
Porque sua vida parecia uma eterna pegadinha.
- Então, você se lembra da Roberta?
Quando ouviu aquele nome, novamente Tina sobrevoou o deserto de sua vida até chegar na época do colegial.
Era final de ano letivo, Tina havia trabalhado duro para manter-se longe de Rafael, porque, por algum motivo, ele continuava tentando falar com ela a sós.
Estava acontecendo uma festinha de despedida da turma, e alguém levou discos da época para tocar.
Rafael bebia refrigerante com os amigos em um canto. No outro, as meninas falavam sobre os meninos.
E Roberta, a menina que tantas vezes havia lhe dito “você não pode sentar com a gente”, viu que olhava fixamente para Rafael. Aproximou-se de Tina.
- Tina. Eu sei o que você está pensando. Mas te digo uma coisa: na vida, às vezes, a gente precisa entender que tem coisas que não foram feitas para darem certo. No caso você é a coisa. Portanto, esqueça Rafael. 
Tina ouvia aquilo com vontade de arrancar os cabelos ondulados de Roberta, mas na verdade mesmo iria chorar.
- A gente vai oficializar namoro.
E saiu, ao encontro de suas amigas.
A música pareceu silenciar.
Nisso, um dos amigos de Rafael falou:
- Rafael quer falar com você lá fora.
E Tina saiu correndo pela última vez naquela escola.
Não queria ser piada eterna da época do colegial.
Desistiu de ir na formatura, e deu graças a Deus quando seus pais se mudaram.

Voltou do flashback.
- Tina, você tá me ouvindo?
Mas Tina não ouviu, levantou da cadeira e saiu correndo pela rua feito uma maloqueira.
Era impressionante como tudo, TUDO na vida de Tina lembrava um filme bobo de Sessão da Tarde. Todos os elementos estavam lá: os traumas da época de escola, os desamores, o fato de não ser bem sucedida, a insegurança, e a trilha dramática enquanto corria pela rua.
Correu por muito tempo, mas ainda estava longe de casa. Pegou um táxi.
Quando chegou, percebeu que havia deixado a bolsinha no restaurante.
“Jesus tô ferrada, o taxista vai querer meu corpo! Vou ter que fazer a Geyse Arruda!”
Pensou.
Quando o taxista percebeu o motivo de seu nervosismo se preparou para iniciar uma discussão. Foi nesse momento que Rafael colocou a cara na janela.
- Posso ajudar?
Ele, que chegou poucos minutos antes, gentilmente pagou a corrida.
Olhou pra Tina, toda escangalhada, suada, miserável mesmo, e perguntou:
- Mas que diabos foi isso?

***


Marcela ficou nervosa em constatar que o barbudo havia deixado uma mensagem.
“Meu Deus, o que será????”
Perguntava-se, enquanto esperava a porcaria do seu computador processar a simples solicitação de abrir a mensagem.
“Merda de computador, dois minutos processando e ainda não abriu.”
Demorou, mas abriu.
E lá estava a mensagem dele:
- Claro que mora longe. CLARO.
Marcela riu de boba que era. Não esperava algum comentário do barbudo em sua inbox, nem esperava agradar. “Bom, pelo menos a tática funcionou”, pensou.
- Sim, moro longe. Aliás, pensei a mesma coisa quando cliquei no seu perfil.
- :~
- As leis do universo são Estranhas.
- Ou do Facebook, né? - Respondeu ele.
E assim iniciaram uma conversa despretensiosa.
Falaram sobre as coincidências de terem o mesmo signo, e por consequência dos pontos positivos e negativos que isso implicava.
Falaram sobre distância, porque, conforme falou Marcela, se morassem perto nada impediria de se conhecerem no dia seguinte.
Não, Marcela não estava sendo desesperada. Estava demonstrando interesse por um cara legal, educado, e que, até onde pôde perceber, tinha muitas coisas em comum com ela.
“A vida é uma bosta”, pensou, enquanto ele digitava outra mensagem. Afinal, tudo para ela era mais difícil e complicado. Inclusive marcar um simples drink com alguém que lhe despertava interesse.
Marcela procurou não pensar de fato no elemento distância, afinal, era apenas a primeira vez que conversavam.
Mas o fato é que Marcela andava com o coração mais derretido, menos resistente, apesar dos coices que a vida lhe deu de presente.
E sendo assim, sabia que a conversa com o barbudo iria render mais do que poderia supor, e sabia que corria diversos riscos. Entre eles, da conversa esfriar repentinamente, do barbudo encontrar uma mulher mais próxima e interessante do que ela, entre outros tantos exemplos.
“Caralho, Marcela!”, pensou, dando um tapa na própria cara.
Afinal, era só uma primeira conversa. Bastava deixar o tempo seguir e ver até onde chegava.
E no meio da longa conversa que tiveram naquela noite, lembrou de um fato que lhe ocorreu anos e anos antes. Um dia, andando pelo centro da cidade, foi parada por uma cigana. Marcela foi reticente, mas acabou estendendo a mão para a velha.
Ela olhou as suas linhas e disse, como um tiro: “você nunca vai ser feliz com nenhum homem.”
E ali, diante do computador, tanto tempo depois, falou, em voz alta:
- Você pode ter acertado até o momento, mas de hoje em diante quem manda nessa porra sou eu, ouviu?
Disse, como se a cigana pudesse lhe ouvir de onde estivesse. Talvez pudesse mesmo.
“Só espero que ela não esteja surda.”

***


- E então Tina, porque saiu correndo de lá feito uma maluca?
- Sim Rafael, eu devo estar louca. Mas fui transportada para aquele dia da festinha da escola, e me disseram que você queria falar comigo na rua...
- Sim, eu queria. Eu lembro disso.
- Eu sabia que você e mais alguém iria aprontar algo pra mim, eu sabia, Rafa.
- Eu vi você correndo pra fora da escola, a última vez que te vi. Mas nunca entendi. Por que achou que eu ia te fazer mal?
- Isso era óbvio. Além do mais, Roberta me falou que vocês iriam oficializar o namoro.
- Oi??? Eu nunca peguei a Roberta!
- Nã-não?
- NÃO!!!! Eu ia dizer, lá no restaurante, que soube da história que Roberta contou pra você. E o que eu queria dizer naquele dia, eu continuo querendo dizer agora.
Tina sentiu-se toda cagada. “Eu to no chão, rapariga!”, pensou ela.
- Tina... você quer ser minha namorada?
E Tina, após alguns instantes de um silêncio reparador, falou, sem titubear:

- Não.